O cartão de crédito faz parte da rotina dos brasileiros. Ele está presente nas diferentes situações de consumo, das compras no supermercado ao pagamento de assinaturas e às aquisições de bens mais caros, como eletrônicos, eletrodomésticos e até veículos. Hoje, são mais de 243 milhões de cartões ativos no Brasil, número superior ao da população brasileira (213 milhões).
Em 2025, foram realizadas mais de 40 mil transações com o cartão de crédito por minuto no país, somando mais de R$3,1 trilhões em gastos no ano, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs). Boa parte dessa movimentação foi feita utilizando o parcelamento, que se consolidou como parte da cultura de consumo no país.
Em vez de pagar tudo de uma vez, boa parte dos consumidores prefere dividir o valor em prestações mensais, o que facilita o acesso a produtos e serviços, sobretudo os de maior valor. “Esse modelo está presente em uma parcela relevante das transações de crédito e é utilizado principalmente em compras de maior valor. Diferentemente de outros mercados, nos quais o crédito ao consumo costuma estar mais associado à incidência de juros ou a outras modalidades de empréstimos”, explica Ricardo de Barros Vieira, vice-presidente executivo da ABECS.
Cultura do parcelamento no Brasil
Mas por que esse modelo se popularizou tanto por aqui? A resposta tem raízes históricas. Antes mesmo de existir cartão de crédito no Brasil, já existia o crediário: um sistema criado pelos próprios varejistas na década de 1950 para vender a prazo em uma época em que o sistema bancário ainda era incipiente. Diferente do "fiado", que era um acordo informal baseado só na confiança, o crediário instituiu uma análise prévia à concessão do crédito.
Décadas depois, essa lógica migrou para o cartão de crédito, impulsionada por um contexto econômico marcado por inflação elevada e juros altos . “Nesse cenário, o parcelamento sem juros se consolidou ao longo do tempo, associado a características do mercado de crédito e à dinâmica do varejo”, aponta o executivo da ABECS.
Segundo dados da entidade, os pagamentos à vista representam atualmente 57,1% das transações com cartão, enquanto o parcelamento sem juros responde por 42,6%. Isso significa que quase metade de tudo que é comprado no crédito no Brasil é dividido em parcelas, sem custo adicional para o consumidor. “Além de parcelar, o consumidor brasileiro entendeu que a modalidade sem juros é a melhor opção”, afirma Ricardo.
O "4x sem juros" parece corriqueiro no Brasil, mas ainda é novidade em outros países. Nos Estados Unidos, por exemplo, a pressão da inflação no período pós-pandemia levou os consumidores a aderir a uma modalidade chamada Buy Now, Pay Later ("Compre Agora, Pague Depois").
Dados do Federal Reserve de Richmond, um dos 12 bancos regionais do Sistema Federal Reserve, o banco central dos EUA, mostram que o volume de transações das maiores plataformas que oferecem esse modelo saltou de US$2 bilhões em 2019 para mais de US$70 bilhões em 2024. Hoje, cerca de 15% dos consumidores americanos já fizeram alguma compra parcelada.
O componente psicológico do parcelamento
O parcelamento vai além de uma forma de organizar pagamentos. Ele também mexe com a maneira como percebemos o valor das coisas — e isso tem explicação na psicologia.
Quando o preço de um produto é dividido em parcelas, o consumidor tende a focar no valor mensal, que parece menor e mais acessível, e não no custo total da compra. Esse efeito é chamado de "diluição do preço" e reduz o que estudiosos chamam de "dor do pagamento", a sensação desconfortável que sentimos ao desembolsar uma quantia alta de uma vez. Ao parcelar, essa dor é amortecida e a decisão de compra fica emocionalmente mais fácil.
A economia comportamental, campo que estuda como fatores emocionais e cognitivos influenciam nossas decisões financeiras, ajuda a entender esse mecanismo. O consumo gera prazer imediato, e o parcelamento reduz a barreira (falta de dinheiro) para acessá-lo. O problema é que esse alívio no momento da compra pode deixar para depois a percepção real do impacto no orçamento.
Esse fenômeno influencia a forma como os preços são apresentados no Brasil. Em vez de comunicar "TV por R$4.200", a publicidade enfatiza "10x de R$420". Em muitos segmentos do varejo, como eletrodomésticos, eletrônicos e móveis, o consumidor reage principalmente à pergunta: "quanto fica por mês?". Na prática, a parcela virou a unidade de referência do preço, e não o valor total.
Benefícios do cartão de crédito
O cartão de crédito reúne uma série de características que ajudam a explicar por que ele se tornou um dos meios de pagamento mais utilizados no país. Ele facilita a rotina de consumo, evita a necessidade de ter dinheiro disponível no momento e permite acessar serviços que, muitas vezes, só funcionam no ambiente digital.
Vale lembrar que o cartão de crédito é apenas uma das modalidades de crédito disponíveis no mercado. Existem outros produtos, como crédito consignado, empréstimo pessoal, financiamento de veículos e crédito imobiliário, cada um com características e condições específicas.
O uso do cartão vai além das compras em lojas físicas. Segundo Ricardo de Barros Vieira, o crescimento das transações pela internet e pelo celular tem ampliado o uso do cartão em diferentes contextos do dia a dia, incluindo desde compras em sites e aplicativos até pagamentos de serviços por assinatura, como streaming, transporte e delivery.
Dentre os principais benefícios do cartão de crédito, destacam-se:
Um benefício que merece atenção especial é a possibilidade de usar o parcelamento sem juros de forma estratégica. Ao dividir uma compra em parcelas, o consumidor pode manter o dinheiro disponível na conta e, se bem planejado, até aplicá-lo em investimentos durante esse período. Nesse caso, o cartão deixa de ser apenas um meio de pagamento e passa a funcionar como uma ferramenta financeira a favor do orçamento.
Para chegar a esse nível de uso, porém, é preciso ter planejamento financeiro e conhecer bem a própria renda e os gastos do mês. Ferramentas como planilhas ou aplicativos de controle financeiro ajudam muito nessa organização, tornando mais fácil visualizar quanto já está comprometido e quanto ainda há de margem antes de assumir novas parcelas.
Riscos do uso inadequado do cartão de crédito
As facilidades do cartão de crédito ajudam a organizar pagamentos e ampliar o acesso ao consumo. Por outro lado, quando o uso não é acompanhado de controle ou planejamento, essas características também podem gerar desequilíbrios no orçamento.
Um dos pontos mais comuns é o acúmulo de parcelas simultâneas. Como diferentes compras podem ser divididas ao longo do tempo, o consumidor passa a assumir vários compromissos ao mesmo tempo. Cada parcela parece pequena, mas a soma delas pode comprometer uma parte significativa da renda mensal, sem que isso seja percebido de imediato.
Esse cenário é agravado pelas compras por impulso. Quando a parcela parece acessível, a decisão de compra fica emocionalmente mais fácil, mesmo que o item não esteja no planejamento. Com isso, surge a perda de controle sobre o total comprometido. Nem sempre é fácil visualizar quanto do orçamento está reservado para pagamentos futuros, especialmente quando temos mais de um cartão em uso. Não há um número ideal de cartões, mas o recomendado é manter apenas a quantidade que seja possível acompanhar de perto, sem perder o controle das faturas e dos vencimentos.
Outro fator relevante é o crédito rotativo. Ele ocorre quando a fatura não é paga integralmente: o saldo restante vira uma dívida sobre a qual incidem juros elevados, entre os mais altos do mercado. O pagamento mínimo pode parecer uma saída imediata, mas tende a prolongar o problema e aumentar o valor total devido. Segundo dados do Banco Central, a inadimplência entre usuários do crédito rotativo superou 60% em 2025, o que ajuda a entender por que o cartão de crédito responde por 84,9% das dívidas dos brasileiros.
Quando essa situação se prolonga, o consumidor pode entrar em inadimplência, ou seja, deixar de honrar os pagamentos dentro do prazo. As consequências incluem a negativação do nome em órgãos de proteção ao crédito, a dificuldade de acesso a novos financiamentos e o crescimento acelerado da dívida por conta dos juros.
Em casos mais graves, o acúmulo de dívidas pode levar ao superendividamento, situação em que a pessoa não consegue mais pagar suas obrigações financeiras sem comprometer o necessário para viver, como alimentação, moradia e transporte. No Brasil, esse tema ganhou atenção com a Lei do Superendividamento (Lei 14.181/2021), que criou mecanismos de proteção e renegociação para quem está nessa situação.
Como fazer bom uso do cartão de crédito
O cartão de crédito pode ser um aliado na organização financeira, desde que o uso esteja alinhado à renda e ao acompanhamento dos gastos. Na prática, pequenas mudanças de hábito fazem grande diferença, e a boa notícia é que não é preciso ser especialista em finanças para colocar isso em prática. Confira as principais orientações da ABECS:
Por fim, se você perceber que as dívidas no cartão estão crescendo e ficando difíceis de controlar, o primeiro passo é enfrentar a situação. Conversar sobre dinheiro, seja com um familiar, um amigo de confiança ou um especialista financeiro, pode ajudar a organizar as decisões e buscar soluções.





