A poupança ainda vale a pena?

Mudança da Selic muda o rendimento da poupança. Veja como fica e se essa é uma opção de investimento para você.

Rendimento da poupança; o que mudou com a nova Selic. Imagem mostra pilhas de moedas simbolizando rendimento e questionamento.
26 de janeiro de 2022 5 min. leitura

Texto produzido pelo Porque.com.br com exclusividade para o Meu Bolso em dia

Os últimos anos foram de bastante turbulência no mercado financeiro brasileiro. Em 2016 teve início um processo de queda nas taxas de juros que continuou até 2021, quando a Selic atingiu seu mínimo histórico de 2% ao ano, em meio a políticas que visavam aliviar os impactos econômicos da pandemia. Logo em seguida, os juros começaram um movimento de elevação em resposta à inflação e às regras fiscais mais frouxas, o que levou a Selic ao patamar de 9,25% ao ano até o final de 2021. Mas como essas mudanças afetaram a rentabilidade da poupança, o investimento favorito dos brasileiros?

A poupança no Brasil tem seu rendimento definido por uma regra atrelada ao valor da Selic, a taxa básica de juros da economia brasileira. A regra é a seguinte: quando a Selic é menor ou igual a 8,5% ao ano, o rendimento da poupança será de 70% da Selic mais a Taxa Referencial (TR); já quando a taxa Selic é maior que 8,5% ao ano, o rendimento da poupança é fixado em 0,5% ao mês mais a TR. Graças à enorme variação da Selic nos últimos anos, a poupança acabou cruzando duas vezes essa linha divisória dos 8,5% ao ano. Essa mudança no rendimento da poupança fica bem clara quando observamos sua evolução histórica no gráfico abaixo, onde mostramos o rendimento mensal da poupança de junho de 2012 até janeiro de 2022:

A poupança ainda vale a pena? Gráfico do rendimento mensal da poupança

Como podemos ver, a rentabilidade da poupança variou bastante nos últimos anos. Mas para decidir se o investimento vale a pena, precisamos comparar seu rendimento com o da inflação. Você já deve ter visto essa comparação algumas vezes nas redes sociais e nos sites especializados em economia e finanças, mas o que ela significa? A taxa de inflação é a mudança percentual no preço de um conjunto amplo de bens. Se a inflação de um ano foi de 10%, significa que o consumidor agora precisa gastar 10% a mais para comprar exatamente os mesmos bens que estava comprando há um ano. Outra forma de dizer a mesma coisa é que o poder de compra de nosso dinheiro diminuiu em 10% ao longo de um ano.

Seguindo esse exemplo, podemos fazer uma conta simples para descobrir se um investimento valeu a pena. Se aplicamos nosso dinheiro em um investimento que rendeu menos que 10% nesse mesmo período, nos demos mal: o investimento agregou menos valor ao nosso capital do que a inflação retirou. Nesse caso, um investimento precisaria render no mínimo 10% para manter o poder de compra do dinheiro que guardamos.

Muita gente ignora esse efeito da inflação, porque ele acontece às escondidas. Uma pessoa pode acessar seu internet banking ou o site de sua corretora e verificar que seus investimentos estão se valorizando, mas ela não percebe que os preços da economia estão aumentando com mais força. Os economistas chamam de “retorno real” a rentabilidade que um investimento nos entrega depois de descontado o efeito da inflação. No gráfico seguinte, apresentamos a rentabilidade real da poupança desde 2012. Toda vez que o rendimento real da poupança fica abaixo da linha tracejada que está no nível zero, significa que a poupança perdeu o “cabo de guerra” contra a inflação. Como podemos ver, os momentos de rendimento real negativo são frequentes, principalmente nos últimos anos.

A poupança ainda vale a pena? Gráfico do rendimento real da poupança

Se a poupança rende muito pouco para nos proteger da inflação, como devemos investir o dinheiro que conseguimos guardar no final do mês? Felizmente, existem muitas alternativas que conseguem compensar os efeitos da inflação. A principal opção são os títulos do Tesouro Nacional. Quando compramos um título do Tesouro, estamos emprestando nosso dinheiro para o Governo Federal, que vai devolvê-lo com juros e mais algum tipo de correção em uma data futura. Os títulos do Tesouro são considerados investimentos livres de risco: se um título nos promete um retorno de 10% daqui a cinco anos, é exatamente isso que ele irá nos entregar. No entanto, é preciso esperar esse prazo e não vendê-lo no meio do caminho, caso contrário podemos até ter prejuízo na transação.

O procedimento para investir em um título do Tesouro é um pouco mais trabalhoso do que na poupança, mas não é um bicho de sete cabeças! É preciso abrir uma conta em uma corretora, que irá intermediar a compra dos títulos. Antes de fazer isso, confira se a corretora cobra algum tipo de taxa para investir no Tesouro e, também, se ela cobra taxas de manutenção. A competição entre corretoras fez com que algumas delas zerassem essas taxas para atrair clientes, portanto o investidor que  pesquisa antes de abrir sua conta consegue poupar bastante dinheiro!

Os títulos do Tesouro são interessantes porque alguns deles conseguem nos proteger da inflação. Em particular, existem dois títulos muito bons para o investidor de longo prazo, chamados de Tesouro Selic e Tesouro IPCA. O primeiro tem o seu valor corrigido pela taxa Selic, e o segundo tem o seu valor corrigido pelo principal índice de inflação da economia brasileira, o IPCA. Além disso, ambos ainda pagam uma taxa de juros em cima dessa correção, portanto o dinheiro que colocamos nesses títulos irá acumular retornos reais ao longo do tempo. Se você quer começar a acumular um pé de meia para a aposentadoria, ou só colocar o seu dinheiro para render por alguns anos enquanto se prepara para realizar um sonho, os títulos do Tesouro são uma alternativa muito melhor do que a poupança.

Para que serve a poupança?

Já que a poupança não consegue vencer a inflação, as pessoas ainda devem colocar dinheiro nela? A resposta é sim: a poupança é um investimento importante, mesmo não conseguindo repor o poder de compra que foi corroído pela inflação! Mas é preciso saber como usá-la.

Este investimento tem três qualidades muito importantes, que raramente encontramos nas demais aplicações do mercado financeiro. Em primeiro lugar, a poupança não gera nenhum custo para o poupador. O governo não cobra nenhum imposto sobre nossos rendimentos, e os bancos não cobram taxas de manutenção, saque ou abertura para contas-poupança. Já no caso dos títulos do Tesouro que mencionamos acima, acabamos pagando diversos tipos de custos que reduzem o rendimento, como imposto de renda e IOF, taxas de corretagem, emolumentos etc.

Em segundo lugar, a poupança possui alta “liquidez”. Você já deve ter ouvido esse termo em referência a aplicações financeiras: a liquidez de um investimento é uma medida de quão rápido podemos sacá-lo na forma de dinheiro. No caso da poupança, um poupador pode imediatamente sacar uma parte do seu saldo para gastar com alguma coisa, portanto é normal dizer que a poupança tem liquidez diária. Já os títulos do Tesouro também possuem liquidez diária, mas eles são vendidos pelo seu preço de mercado. Se precisarmos vender nossos títulos em uma emergência, podemos acabar recebendo um valor menor do que pagamos.

Por fim, a poupança é um dos investimentos mais seguros à disposição dos brasileiros. Quando investimos em uma poupança, estamos emprestando nosso dinheiro para algumas das entidades mais sólidas da economia brasileira, os bancos. E mesmo no caso extremo no qual um banco acaba falindo, uma parte de nosso dinheiro pode ser recuperada, devido à proteção do Fundo Garantidor de Crédito, ou FGC. Mais especificamente, o FGC garante um valor máximo de R$250 mil por CPF contra uma mesma instituição financeira. Neste aspecto de segurança, os títulos públicos são comparáveis à poupança, pois eles são garantidos pelo Tesouro Nacional.

Portanto, por um lado a poupança oferece uma combinação de baixo custo, alta liquidez e segurança é excelente, mas, por outro, rende menos que a inflação. No entanto, essas qualidades fazem da poupança um ótimo destino para uma aplicação que faz falta na vida de muitos brasileiros: a reserva de emergência. Esse é o dinheiro que separamos para dar conta daqueles gastos inesperados, como uma consulta médica, a assistência técnica do celular, um conserto de emergência na nossa casa etc. Quando uma pessoa não possui uma reserva de emergência, ela acaba tendo de pagar por esses gastos com o cheque especial ou o cartão de crédito, que cobram taxas de juros altíssimas. Infelizmente, quando entramos no cheque especial ou no cartão de crédito, é difícil sair: as taxas de juros fazem com que nossa dívida cresça mais rápido que nossa capacidade de pagar, criando uma verdadeira bola de neve.

O único jeito de se proteger é juntando uma reserva que será usada exclusivamente para dar conta desses gastos inesperados. Para montar sua reserva de emergência, faça o seguinte: todo mês, deposite um pouco de dinheiro em uma conta de poupança. Você fará isso até juntar um valor equivalente a três meses de salário. Quando você usar parte desses fundos para cobrir um gasto emergencial, volte a depositar dinheiro até que o valor da reserva retorne ao nível de três meses de salário. Quando o assunto é reserva de emergência, as boas qualidades da poupança acabam compensando seu baixo rendimento: a liquidez diária nos permite usar esse dinheiro assim que um fato inesperado acontecer; o custo zero garante que não sofremos nenhum tipo de penalidade na hora de sacar esse valor; finalmente, a segurança oferecida pelo Fundo Garantidor de Crédito significa que não precisamos nos preocupar com perder o dinheiro que guardamos para emergências.

O investidor consciente combina vários tipos diferentes de aplicações. Para o longo prazo, é preciso garantir que nosso dinheiro esteja protegido da inflação, e para isso os títulos como o Tesouro IPCA ou o Tesouro Selic são excelentes. Mas também precisamos nos preparar para as emergências que vão aparecer no meio do caminho, e para isso a poupança é essencial.

Se você não tem uma reserva de emergência, que tal aproveitar a leitura deste artigo para começar? A reserva é uma das melhores coisas que você pode fazer agora mesmo para melhorar sua saúde financeira. Toda vez que você evita de usar o cheque especial ou o cartão de crédito, está fazendo um enorme favor para o seu “eu” futuro!

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