Como as mudanças climáticas mexem com o seu bolso

Entenda a relação entre dinheiro e meio ambiente e o que você pode fazer para ter uma vida mais sustentável.

Poupar e Investir

/ 02 Set 2025 / 3 min. leitura
como as mudanças climáticas mexem com nosso dinheiro

As mudanças climáticas não são mais uma ameaça distante. Em diversas regiões do Brasil, os cidadãos já sofrem os efeitos do calor extremo, secas prolongadas e enchentes. Entre março de 2024 e fevereiro de 2025, a temperatura média global ficou 0,71°C acima da média climatológica, que considera pelo menos os últimos 30 anos, e 1,59°C acima dos níveis pré-industriais. O verão de 2025 foi considerado o segundo mais quente da história.

Esses eventos não geram apenas impactos ambientais: eles afetam diretamente a economia do país e a vida de todos nós. A escassez de água compromete a agricultura e aumenta os custos de produção, elevando o preço dos alimentos e colocando a segurança nutricional da população em risco. A escassez de água e energia encarece o preço das contas de itens básicos. A perda de biodiversidade afeta ecossistemas essenciais para o equilíbrio ambiental e econômico.

Os efeitos para a saúde humana também são nefastos. A poluição provocada por incêndios florestais pode agravar problemas respiratórios, como asma e bronquite. O calor pode aumentar a infestação de mosquitos e o surgimento de doenças como chikungunya, dengue, zika e malária. Até mesmo a saúde mental pode ser afetada em decorrência de sofrimentos gerados por eventos extremos.

A situação é grave e exige que cada um de nós faça a sua parte para ajudar a conter as mudanças climáticas. Veja, a seguir, algumas dicas para colocar o tema em sua rotina, preparando-se para ter mais resiliência pessoal e financeira em um mundo cada vez mais desafiador.

As mudanças climáticas e você

como as mudanças climáticas afetam nosso dia a dia e nosso bolso

As mudanças climáticas impactam o custo de vida no curto prazo, além de ameaçar nossa existência no longo prazo. Não se trata mais de previsões futuras, mas de efeitos concretos que já afetam o cotidiano, especialmente, das populações mais vulneráveis. Entenda, a seguir, seus principais efeitos.

Perda de safras e aumento dos preços dos alimentos

O avanço da desertificação e a degradação do solo reduzem a área disponível para cultivo. Isso diminui a produção agrícola, aumenta a dependência de alimentos importados e eleva os preços de itens básicos, como arroz, feijão e milho. Para os pequenos produtores, o efeito é ainda mais severo, podendo comprometer a renda familiar e a manutenção do negócio.

Além disso, eventos extremos, como secas e chuvas intensas, prejudicam a produção e a qualidade das colheitas, a exemplo do que aconteceu com o café no início de 2025. Isso não só encarece alimentos no supermercado, mas também afeta a segurança alimentar, com impacto direto em famílias que destinam grande parte do orçamento à alimentação.

O “Panorama Regional de Segurança Alimentar e Nutrição 2024”, lançado em janeiro de 2025 pelas Nações Unidas, mostra que ao menos 20 países da América Latina e do Caribe estão sob risco de insegurança alimentar em decorrência de eventos climáticos extremos. 

Aumento de pragas e doenças

Mudanças no clima, como temperatura mais alta e umidade variável, favorecem a reprodução de vetores e pragas que afetam a saúde e a economia. Um exemplo recente vem dos surtos de dengue: nos meses de março e abril de 2024, o Brasil registrou 1,7 milhão e 1,6 milhão de casos prováveis, respectivamente; índices recordes que coincidiram com o fenômeno El Niño, que elevou calor e chuvas em várias regiões do país.

Essa proliferação mais intensa exige dos governos e da população aumento nos gastos com saúde - vacinas, medicamentos repelentes e controle vetorial. Estima-se que, em 2024, os custos com tratamento e combate à dengue, zika e chikungunya tenham chegado a R$5,2 bilhões e o impacto na produtividade nacional afetou até R$7 bilhões do PIB. 

Perda de moradia e emprego

Tempestades, enchentes e deslizamentos destroem casas e infraestrutura, gerando custos inesperados com reparos e realocação. Além das perdas materiais, há impacto direto na renda: negócios locais podem ser interrompidos, resultando em perda de empregos. Em um cenário de transformações constantes, buscar capacitação para as profissões do futuro pode ser uma alternativa para fortalecer a resiliência financeira das famílias diante desses riscos. 

Redução da biodiversidade

O desaparecimento de espécies compromete ecossistemas essenciais para a agricultura, pesca e recursos hídricos. Um dos exemplos mais claros está na polinização. Dados do IBGE, divulgados em julho de 2025, mostram que a contribuição da polinização animal para a produção agrícola e extrativista brasileira foi, em média, de 16,14% do valor total em 2023, acima do registrado em 1996 (14,4%).

Mais da metade (52,2%) dos 67 produtos pesquisados dependem, em algum grau, da ação de polinizadores como abelhas, morcegos e aves. Essa dependência é ainda maior em lavouras permanentes, como frutas e café, em que 71,4% da produção exige a presença desses animais. No caso da produção extrativista, a contribuição da polinização chegou a 47,2% em 2023.

Na prática, quando espécies polinizadoras são ameaçadas pelo desmatamento, incêndios florestais, uso intensivo de agrotóxicos ou mudanças climáticas, não é só o equilíbrio ambiental que se perde. A produtividade agrícola diminui, os custos de produção aumentam e o reflexo aparece no bolso do consumidor, especialmente das famílias de baixa renda, que já gastam boa parte do orçamento com alimentação.

Energia verde: é possível usar a energia solar gastando pouco

Como as mudanças climáticas mexem com o seu bolso: Mão sob placas de energia solar

Os combustíveis fósseis (carvão mineral e derivados de petróleo) estão entre as principais fontes de emissão dos gases de efeito estufa, que levam ao aquecimento global e às mudanças do clima. Eles representam cerca de 11% da matriz elétrica brasileira, que é baseada em hidrelétricas.

O país possui outra fonte inesgotável de energia renovável e limpa: o sol. Em 2025, a energia solar ultrapassou 55,2 GW de potência instalada, tornando-se a segunda maior fonte da matriz elétrica nacional, com 22,2% de participação, segundo dados da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar).  

Desse total, 37,6 GW vêm da geração própria, ou seja, de placas fotovoltaicas instaladas em telhados e quintais de cerca de 5 milhões de residências, e 17,6 GW vêm de grandes usinas conectadas ao Sistema Interligado Nacional (SIN). Além disso, há, hoje, sistemas simples e acessíveis para iluminar o jardim ou aquecer a água do chuveiro, por exemplo, usando a energia solar. Veja algumas opções em diferentes faixas de preço.

Como utilizar energia solar gastando até R$ 100

Jardins, gramados e outras áreas de casas e escritórios podem ser iluminados com lâmpadas que usam apenas a energia do sol. Existem vários modelos disponíveis no mercado, com pequenas placas solares e baterias acopladas. As placas recarregam essas baterias e um sensor embutido nessa estrutura garante que a lâmpada se acenda apenas quando escurece.

É um sistema simples, que qualquer pessoa consegue instalar sem a necessidade de ajuda de profissional especializado. Em geral, basta fixar no solo ou prender na parede. Há alguns modelos mais caros, mas é possível encontrar luminárias solares de parede por cerca de R$30 e kits com várias lâmpadas por preço inferior a R$100. 

Nessa faixa de preço há, também, carregadores para celulares, ventiladores e até carrinhos de brinquedo movidos à energia solar. É interessante saber que o objeto não precisa ficar diretamente exposto ao sol para ser recarregado – a claridade já dá conta do recado.

Usar a energia solar gastando até R$ 2.000

Com um investimento um pouco maior, você tem acesso a tecnologias ecológicas ainda mais sofisticadas. É o caso da energia solar térmica, que permite aquecer a água usada em torneiras, chuveiros e piscinas, por exemplo. O sistema é formado por coletores solares, que são placas metálicas, muitas vezes com vidro, que fazem a captação da luz e aquecem a água. 

Hoje, podem ser encontrados módulos na faixa de R$1.500 (para 200 litros), que trazem até 70% de redução no consumo de energia elétrica para o aquecimento de água. Esses coletores são instalados em telhados ou outros lugares onde ficam mais expostos aos raios solares e fixados a um sistema de tubulação, por onde a água circula. Nessa estrutura, é instalado também um reservatório térmico (boiler), onde a água quente fica armazenada para uso.

Sistema fotovoltaico: Como gerar sua própria energia

Você também pode investir em um sistema fotovoltaico para gerar a energia elétrica necessária para abastecer a sua casa ou empresa. Funciona assim: você instala os equipamentos, usa a energia e “vende” o que sobrar para a distribuidora local, em troca de créditos para abater na conta de luz.

É possível, dessa maneira, zerar a conta de energia, dependendo do tamanho da instalação. Em muitos países, se você produz mais energia do que usa, pode vender o excedente diretamente a outros consumidores. Isso não vale, por enquanto, no Brasil. Se a energia gerada não for suficiente, ela é complementada pela rede elétrica convencional.

Assim como os coletores solares, o sistema fotovoltaico é uma estrutura modular, formada por uma série de placas que são acopladas ao telhado ou instaladas em outros espaços que recebem mais radiação solar. A instalação demanda acessórios, além da contratação de uma empresa especializada. Como cada residência tem dimensões e características, é necessário um projeto específico.

Dicas para economizar, cuidar do ambiente e mudar o estilo de consumo

hábitos para economizar e ter menos impacto ambiental

Adotar hábitos sustentáveis no dia a dia pode parecer um detalhe, mas faz diferença tanto na conta no fim do mês quanto no impacto ambiental. A boa notícia é que não é preciso investir alto nem transformar a rotina de uma vez só: pequenas escolhas já geram grandes resultados. Confira algumas ideias práticas que ajudam a economizar recursos, reduzir desperdícios e ainda deixar o estilo de vida mais consciente. 

Captar a água da chuva

Quem mora em casa pode aproveitar a água da chuva para diversas atividades: regar plantas, lavar o quintal, dar descarga ou até limpar o carro. O jeito mais simples é colocar um recipiente grande (como tonéis de plástico ou caixas d’água pequenas) embaixo de calhas ou áreas onde a chuva escorre com mais força. Para evitar sujeira, cubra com uma tela fina que segure folhas e galhos.

Com um pouco mais de investimento, é possível instalar cisternas próprias, que já vêm com sistema de filtragem e bomba.  Como são muitas opções e modelos disponíveis no mercado, os preços também variam muito. Os modelos menores, chamados de minicisternas, custam a partir de R$900 e já ajudam bastante no dia a dia. Os maiores, que chegam a mais de R$10 mil, são indicados para famílias grandes ou quem tem jardim extenso.  

Estudos mostram que empresas conseguem reduzir até 38% da conta de água com esse tipo de solução, e em residências a economia pode chegar perto de 50%, dependendo do consumo. É um investimento que se paga e ainda ajuda o meio ambiente. Além de economizar dinheiro, você estará usando um recurso que iria simplesmente para o esgoto.

Rever o estilo de vida e o padrão de consumo

Sustentabilidade também é sobre fazer escolhas conscientes diariamente. É preciso parar e revisitar atitudes cotidianas, aquelas que estão no “piloto automático”. Alguns exemplos:

  • Transporte: se for um trajeto curto, troque o carro por caminhada ou bicicleta. Além de economizar combustível, faz bem para a saúde.
  • Alimentação: plantar temperos em casa é simples e ajuda a reduzir idas ao mercado. Dá para começar com vasos de manjericão, hortelã ou salsinha na janela.
  • Compras: antes de levar um produto para casa, pergunte-se se realmente precisa. Em vez de ter várias peças iguais de roupa, que tal explorar um armário cápsula inteligente?
  • Apoio ao comércio local: comprar na feira do bairro ou do pequeno produtor é mais sustentável e muitas vezes mais barato.

Evitar as perdas de alimentos e outros desperdícios

Muitos gastos que pesam no bolso e prejudicam o meio ambiente acontecem de forma silenciosa, sem que a gente perceba. O desperdício de alimentos é um bom exemplo: comidas esquecidas na geladeira, produtos que vencem antes de serem usados e até compras por impulso que acabam indo direto para o lixo. Para evitar isso, comece pelo planejamento. 

Antes de ir ao mercado, faça uma lista com o que realmente precisa e organize a geladeira deixando à frente os alimentos que devem ser consumidos logo. Outra boa ideia é reaproveitar sobras em novas receitas. O arroz do dia anterior pode virar bolinho e o frango desfiado pode ser o recheio de uma torta saborosa.

Envolver as crianças no preparo das refeições também ajuda a reduzir perdas. Além de transformar a cozinha em um espaço de aprendizado e diversão, você mostra na prática que cada alimento tem valor e não deve ser desperdiçado.

Mas os desperdícios não acontecem apenas na comida. Existem os chamados “vazamentos invisíveis”: torneiras pingando, chuveiros ligados por mais tempo que o necessário e luzes acesas em cômodos vazios. São detalhes pequenos, mas que, somados, podem representar uma fatia considerável da conta no fim do mês.

Reciclar e reaproveitar o que for possível

Aprender a lidar melhor com os resíduos que produzimos no dia a dia também é uma ótima forma de criar bons hábitos. O primeiro passo é repensar antes de comprar: muitas vezes adquirimos produtos por impulso ou em quantidades desnecessárias, o que gera gastos extras e mais lixo. Sempre que possível, reutilize embalagens e objetos - potes de vidro podem virar recipientes úteis e caixas de papelão podem ser transformadas em organizadores. O que não puder ser reaproveitado deve ser separado corretamente para a reciclagem.

O lixo orgânico, que representa boa parte do que descartamos, pode ganhar um novo papel por meio da compostagem. Restos de frutas, legumes, cascas de ovos e borra de café podem ser transformados em adubo natural, diminuindo o volume de lixo enviado aos aterros e ainda gerando economia para quem cultiva plantas ou uma horta em casa.

Outra mudança importante é evitar o uso de descartáveis: carregar uma garrafa ou copo reutilizável, além de sacolas duráveis, reduz significativamente a quantidade de resíduos gerados. Por fim, lembre-se de que nem tudo o que não serve mais para você precisa virar lixo: roupas, livros e objetos em bom estado podem ser doados ou trocados, prolongando sua vida útil.

Conectar as crianças à natureza

Como as mudanças climáticas mexem com o seu bolso: crianças na natureza reciclando

Dica #5: Conectar as crianças à natureza

Educar com afeto e consciência significa plantar valores que crescem junto com as crianças. Ensinar como funcionam os projetos ambientais municipais, falar sobre conceitos como Pegada Ambiental, pedir ajuda para reciclar o lixo são formas de mostrar que precisamos tornar o mundo um lugar que seja bom para elas viverem no futuro.

Quanto mais cedo elas tiverem contato com a natureza, mais irão desenvolver noções de cuidado com o meio ambiente e compreensão sobre a importância de preservar os recursos naturais. Existem várias maneiras práticas de colocar isso em prática no dia a dia.

Montar uma pequena horta, mesmo em vasos na varanda ou na janela, é uma ótima forma de mostrar o ciclo da vida e o valor de cada planta. As crianças se envolvem no cuidado diário e sentem orgulho ao colher o que plantaram. Incentivar brincadeiras ao ar livre também ajuda a criar vínculo com o ambiente e a diminuir o tempo excessivo em frente a telas.

Outra oportunidade valiosa é promover o contato com diferentes animais. Observar e interagir com aves, peixes, insetos ou pequenos animais de estimação ensina respeito, empatia e cuidado com todas as formas de vida. Com esse contato, as crianças aprendem que cada ser vivo tem um papel no ecossistema e que é importante conviver com responsabilidade. 

Essas experiências ajudam a formar adultos mais conscientes, que respeitam o planeta e todos os seres que nele habitam.

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Matéria publicada originalmente em 04/06/2021 e atualizada em 02/09/2025.