Você já comprou algo só porque viu nas redes sociais? Se a resposta for sim, saiba que não está sozinho. Uma pesquisa feita pela YouPix, em parceria com a Nielsen, mostra que 80% dos consumidores já adquiriram ao menos um produto recomendado por influenciadores digitais. E 71% dizem estar cansados da quantidade de publicidade nesse ambiente.
A influência continua forte porque muitos seguidores confiam no conteúdo e nas recomendações dos criadores, motivados por identificação e autenticidade. Não é à toa que os influenciadores tornaram-se peça-chave nas estratégias de marketing.
O que parece um post casual pode, na verdade, ser uma campanha cuidadosamente planejada para vender - e funciona. Entre filtros, vídeos virais e estilos de vida idealizados, as redes sociais influenciam não só o que compramos, mas também por que e para quem compramos. E isso pode ter um custo tanto no bolso quanto na saúde financeira.
Com a força dos algoritmos e a exposição diária a esse tipo de conteúdo, a fronteira entre desejo e necessidade se torna cada vez mais difusa. Essa mistura de entretenimento, informação e publicidade cria um ambiente em que o impulso de comprar pode acontecer sem reflexão — e, muitas vezes, sem caber no orçamento.
A psicóloga Tatiana Filomensky, Coordenadora do Programa de Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, e Luiz Castelli, Gerente de Assuntos Econômicos da Febraban, respondem como lidar com a situação numa conversa franca com a jornalista Mona Dorf, Diretora-adjunta de Mídias Sociais da Febraban. Assista!
Continue a leitura, também, para saber como lidar com o impacto que as redes sociais podem ter no seu bolso.
A lógica por trás do feed: mais do que fotos bonitas
A performance nas redes vai além das curtidas. Fotos com alta produção, roupas de marca, viagens, eletrônicos parecem espontâneas, mas muitas vezes são resultado de estratégias de marketing ou de um desejo de aceitação social. No ambiente digital, o consumo se torna uma vitrine de identidade, e não é raro que uma compra seja motivada pelo simples desejo de postar.
Ao se comparar a amigos, conhecidos ou celebridades, o usuário pode sentir insatisfação com a própria aparência e, consequentemente, buscar no consumo uma forma de se aproximar desse padrão idealizado.
Nessa dinâmica, os influenciadores desempenham um papel central. Ao unir estética, narrativa pessoal e recomendações de produtos, eles transformam o estilo de vida em vitrine e o desejo em compra.
O algoritmo intensifica esse processo, pois aprende o gosto do usuário e passa a oferecer anúncios cada vez mais personalizados, com descontos e gatilhos emocionais. A promessa de pertencimento pode pesar mais que a razão.
O que fazer quando o consumo deixa de ser consciente
O consumo consciente é aquele planejado, alinhado às necessidades reais e às possibilidades financeiras. Já o consumo impulsivo é movido pelo marketing persuasivo, pela sensação de escassez (medo de perder a oportunidade), por gatilhos emocionais ou comparação social (quero porque outra pessoa tem).
As redes sociais intensificam esse comportamento ao criar um ambiente de estímulos constantes, em que notificações, promoções e tendências funcionam como convites para agir sem reflexão. Confira, a seguir, como isso se manifesta com mais frequência.
Comparação silenciosa
Nas redes, é fácil sentir que todo mundo está sempre melhor, mais bonito ou mais realizado. Essa sensação, alimentada por imagens filtradas e narrativas editadas, pode gerar insegurança e influenciar decisões de consumo impulsivas.
Um estudo apontou que conteúdos como o #fitspo masculino, por exemplo, focado em corpos musculosos, aumentam a preocupação com o físico e a busca por se adequar a padrões estéticos. Essa pressão estética não fica apenas no campo da autoestima: ela frequentemente se traduz em gastos com roupas, tratamentos, academias ou procedimentos para tentar “alcançar” o padrão visto no feed.
Esse tipo de comparação é prejudicial ao bem-estar psicológico, à autoestima e à imagem corporal independentemente da faixa etária ou gênero da pessoa.
Efeito manada nas tendências digitais
Outro fator é o efeito manada, no qual o consumo é guiado pela tendência do momento, sem análise sobre a real necessidade ou utilidade.
Um bom exemplo são as famosas “trends” do TikTok e Instagram. A onda do morango do amor que virou febre em vídeos curtos, levou muita gente a comprar ingredientes e até utensílios específicos apenas para reproduzir o conteúdo. Ou, ainda, a comprar a unidade por um valor exorbitante apenas pela sensação de fazer parte da moda, mais do que pela vontade genuína de comer o doce.
FOMO e o consumo movido pelo medo de ficar de fora
A FOMO (Fear of Missing Out), ou medo de ficar de fora, é um tipo de ansiedade ligada ao que acontece nas telas, que provoca a necessidade de checar notificações constantemente. Quando não é possível fazer essa verificação, algumas pessoas sentem irritação e nervosismo.
Segundo especialistas, cada notificação funciona como um “convite” para não perder nenhuma informação, seja tanto no trabalho (acompanhando grupos fora do expediente), quanto na vida pessoal (monitorando postagens de conhecidos).
Essa rotina interfere no descanso, prejudica a concentração e, em casos mais graves, pode levar à dependência digital, ansiedade e burnout. Do ponto de vista neurológico, a checagem constante estimula a liberação de dopamina, que proporciona prazer imediato e reduz o controle de impulsos. O resultado é um ciclo que mantém o usuário conectado e, muitas vezes, mais propenso a realizar compras por impulso.
Dicas práticas para escapar das armadilhas do consumo digital
Romper com esse padrão não exige abandonar completamente as redes, mas sim adotar práticas de autocontrole.
Por exemplo, silenciar notificações, definir horários para usar aplicativos e diversificar o tipo de conteúdo consumido são medidas simples que ajudam a reduzir o impulso, restaurar o foco e transformar a relação com o consumo.
O ambiente online está cheio de gatilhos para gastar mais do que o necessário e muitos acontecem sem que percebamos. Para manter o controle, experimente adotar algumas estratégias abaixo.
- Deixe de seguir perfis: se eles fazem você se sentir inferior, pressionado a gastar ou insatisfeito com o que já tem, é hora de repensar. Faça uma “limpeza digital” removendo ou silenciando conteúdos que estimulam consumo excessivo ou exibem um padrão de vida distante da sua realidade. Assim, você reduz comparações desnecessárias e abre espaço para seguir pessoas ou páginas que inspirem de forma positiva.
- Instale bloqueadores de publicidade personalizada: esses recursos impedem que anúncios sejam segmentados com base no seu comportamento online, reduzindo a exposição a promoções tentadoras que aparecem “do nada” no feed. Extensões como uBlock Origin e Privacy Badger (para navegadores) ou o ajuste das permissões de rastreamento no próprio celular ajudam a diminuir a pressão para consumir.
- Planeje antes de comprar: antes de adicionar algo ao carrinho, pergunte-se se aquilo será realmente usado ou se é apenas uma tendência passageira. Descontos exclusivos e “flash sales” nas redes sociais criam um senso de urgência que estimula compras impulsivas, mas, se você estiver em dúvida, é melhor não gastar.
- Estabeleça um limite mensal: definir um teto de gastos ajuda a evitar falhas no orçamento. E, uma forma simples de calcular esse valor é usando a técnica 50-30-20, em que 50% da renda vai para necessidades básicas, 30% para o lazer e manutenção do estilo de vida (incluindo, aqui, as comprinhas) e 20% para investimentos e pagamento de dívidas.
- Crie uma “lista de desejos”: em vez de comprar imediatamente, salve as ideias e pense sobre elas mais tarde. Você pode fazer print do item desejado e revisitá-lo depois de, pelo menos, 48 horas. Com isso, as chances de comprar por impulso diminuem.
- Desative notificações de aplicativos: notificações frequentes criam ansiedade e impulsividade. Se você estiver gastando mais do que deve, pode até mesmo desinstalar os aplicativos de compra, para diminuir a tentação. Também vale a pena buscar os gastos invisíveis que geramos e depois esquecemos.
Lembre-se: estilo de vida não é sinônimo de poder de compra
Viver acima do que o orçamento permite pode levar a dívidas e ao estresse financeiro. Antes de assumir novos gastos, avalie se eles realmente cabem no seu bolso e se não vão comprometer objetivos mais importantes.
Manter um padrão de vida saudável significa reservar espaço para imprevistos, evitar recorrer com frequência ao crédito rotativo e ter margem para emergências. Alguns sinais de alerta incluem salário que acaba antes do mês, uso recorrente de cheque especial ou parcelamento da fatura do cartão.
Uma estratégia simples para enxugar a fatura é revisar gastos recorrentes (como assinaturas que não são mais utilizadas) e repensar hábitos que pesam no bolso, como pedidos frequentes em aplicativos de entrega. Pequenos ajustes nessas áreas podem liberar recursos para prioridades mais relevantes ou para uma reserva de segurança.
Registrar todas as entradas e saídas do orçamento também ajuda a racionalizar compras. Ao visualizar para onde o dinheiro está indo, fica mais fácil evitar aquisições por impulso.
E, quando sobra algum valor, considere direcioná-lo para investimentos com objetivos claros, como um projeto futuro, uma meta pessoal ou proteção em caso de emergência.
Como se expressar nas redes sem estourar o orçamento
Se você gosta de compartilhar sua vida online, vale lembrar que a visibilidade não precisa vir acompanhada de ostentação. Antes de publicar, pense em três pontos: como usar o que você já tem, como adaptar tendências ao seu estilo e como manter seu orçamento sob controle. Essas escolhas ajudam a manter a liberdade criativa sem comprometer a saúde financeira.
Crie com o que já está ao seu alcance
O “look do dia”, uma receita, um trecho de música ou até histórias do cotidiano podem render conteúdo relevante para os seus seguidores. A chave está na criatividade, não no limite do cartão de crédito.
Se o seu foco for moda, vale explorar a moda circular e o armário cápsula, que permitem variar os looks gastando menos. Já quem gosta de beleza e estética precisa tomar cuidado com os gastos com cosméticos, não ultrapassar o seu orçamento e entender como equilibrar vaidade e finanças.
Se estiver difícil medir o gasto com a vida fit, vale a pena parar e se reorganizar. Existem várias formas de se exercitar de forma saudável sem exagerar financeiramente e ainda tornar isso um conteúdo interessante pros seus seguidores.
Também vale a pena olhar aquilo que você já fez. Que tal transformar um post antigo em algo novo, com um formato diferente? Aqui, a criatividade é quem manda. E lembre-se: performar nas redes tem muito mais a ver com explorar sua personalidade do que aquilo que você possui.
No fim das contas, o que vale é a autenticidade
As redes sociais podem ser um espaço rico para expressão e conexão, desde que seja possível diferenciar o que é um desejo genuíno do que é fruto de influência externa. Uma prática que ajuda nesse processo é ajustar o que aparece no seu feed, assim, reduzindo a exposição a perfis que alimentam comparações prejudiciais à autoestima.
Vale lembrar que o ambiente digital tende a mostrar apenas recortes da vida das pessoas, como momentos de sucesso, viagens, conquistas ou, no extremo oposto, situações muito dramáticas. O que quase nunca aparece são as pausas, as rotinas comuns e os períodos de incerteza que fazem parte da vida de todos. Ter essa consciência ajuda a manter expectativas realistas e a cultivar paciência com o próprio ritmo.
Se perceber que o conteúdo consumido está afetando seu bem-estar ou levando a decisões financeiras impulsivas, é importante buscar apoio — tanto para cuidar da saúde mental quanto para prevenir o endividamento. Afinal, consumir com consciência é também uma forma de proteção emocional e financeira, e autenticidade não tem custo monetário.





