O papel do cofrinho na educação financeira das crianças

Da tradição medieval ao mundo digital, o cofrinho ensina as crianças a lidar com dinheiro desde cedo, de forma lúdica e com o apoio da família.

Poupar e Investir

/ 07 Out 2025 / 5 min. leitura
O hábito de guardar moedas é antigo e pode ajudar as crianças a lidar melhor com o dinheiro na vida adulta.

O cofrinho tem uma história curiosa que atravessa séculos. Na Europa medieval, as pessoas guardavam moedas em potes de barro feitos de uma argila, chamado pygg. Com o tempo, a palavra pygg caiu em desuso, mas soava igual à palavra inglesa pig (porco). Os artesãos, então, começaram a moldar os potes no formato de porquinho, dando origem ao famoso piggy bank

Desde então, o cofrinho se tornou muito mais do que um objeto: é uma ferramenta lúdica e educativa que ajuda a introduzir as crianças no universo da educação financeira, ensinando paciência, disciplina e valores que podem levá-las a tomar decisões financeiras responsáveis na vida adulta.

O mundo mudou, o dinheiro e as formas de poupar também. Hoje, grande parte das transações com dinheiro é digital, e os hábitos de poupança acompanham esse movimento. Aplicativos e ferramentas online permitem que crianças e adolescentes criem seus próprios “cofrinhos virtuais”, que estimulam o planejamento e o controle dos valores guardados. 

Mesmo nesse cenário moderno, o cofrinho físico continua sendo uma boa forma de introduzir esses conceitos e ensinar as crianças a poupar desde cedo. Ele é palpável,  visual e permite ver as moedas e notas se acumulando. Fica mais fácil perceber o progresso dia após dia e entender, de forma concreta, que economizar exige paciência. No final, cada moeda guardada é uma lição sobre como pequenas decisões podem transformar sonhos em conquistas reais.

Para cada moeda, uma lição diferente

A educação financeira das crianças começa dentro de casa



Ensinar educação financeira desde cedo traz benefícios que vão além de aprender a poupar. As crianças desenvolvem disciplina, paciência e senso de planejamento, habilidades que serão úteis ao longo da vida. Para que esse aprendizado seja eficaz, ele deve começar dentro de casa, de forma lúdica e participativa

Atividades simples, como guardar moedas em um cofrinho, lata, vidro ou caixinha, estabelecer metas para comprar um brinquedo ou planejar uma pequena viagem, transformam o aprendizado em brincadeira. Conversar abertamente sobre dinheiro, explicando decisões do dia a dia de maneira acessível, ajuda a criança a compreender conceitos importantes.

“A infância é a fase em que construímos os primeiros modelos mentais sobre o mundo, inclusive sobre o dinheiro. Quando a criança aprende desde cedo a lidar com ele, está praticando também as escolhas, aprende a esperar e até a lidar com frustrações. Assim, desenvolve não apenas habilidades financeiras, mas também socioemocionais, como autocontrole e resiliência”, afirma a psicóloga e especialista em educação financeira infantil Priscila Rossi. 

A atitude dos pais influencia diretamente o comportamento financeiro das crianças desde cedo, porque elas aprendem principalmente pelo exemplo. Quando as crianças observam como os adultos lidam com dinheiro, fazem escolhas de consumo, economizam, planejam gastos e enfrentam imprevistos, tendem a reproduzir esses hábitos. Pais, avós, tios e outros cuidadores que demonstram organização financeira, priorizam gastos de forma consciente e praticam a poupança ensinam, na prática, disciplina e responsabilidade. 

Priscila Rossi explica que se em casa o dinheiro é sempre motivo de briga, por exemplo, as crianças associam o tema a algo negativo. Se os responsáveis conversam sobre escolhas, envolvem a criança em pequenas decisões e demonstram equilíbrio no consumo, elas entendem o dinheiro como algo natural e saudável.

“Se desejam que as crianças tenham uma boa relação com dinheiro, eles precisam construir essa relação com suas próprias finanças. E isso pode ser feito mesmo eles não tenham aprendido isso de maneira adequada na infância. Quando ensinamos, nós também aprendemos”, destaca. Pequenas ações, como guardar moedas, planejar compras ou evitar gastos impulsivos ensinam paciência e constância. Dizer não a um pedido pode ser difícil, mas ajuda a formar a ideia de que necessidade e desejo são coisas diferentes.

Autora de livros de educação financeira infantil, Priscila ensina que o cofrinho, assim como a mesada, é um laboratório de vida, pois permite que a criança veja, de forma concreta, que pequenas quantias guardadas se transformam em algo maior com o tempo. “Isso ensina paciência, priorização e planejamento. Até os cinco anos, a criança pode ter um único cofrinho e receber valores esporádicos, mas já pode ir aprendendo a diferença entre notas e moedas, fazer pequenas compras e manusear o dinheiro com supervisão para entender sua utilidade.” 

De acordo com Priscila, a partir dos seis anos de idade esse dinheiro esporádico pode se tornar uma semanada, em que a criança divide o dinheiro em três cofrinhos: um para gastos, outro para metas e outro para doação. “Assim, ela aprende que o dinheiro pode ter diferentes destinos e desenvolve habilidades essenciais para cuidar dele”, complementa. Ela dá algumas dicas valiosas para começar com o cofrinho:

  • Prefira modelos transparentes, para que a criança acompanhe a evolução.
  • Pais, outros cuidadores e filhos podem criar um cofrinho juntos, utilizando uma garrafa pet, por exemplo.
  • Use metas visuais: uma foto ou desenho do objetivo que a criança quer alcançar colado no cofrinho.

Transformar o aprendizado em brincadeira torna o processo natural e prazeroso, mostrando que a educação financeira vai muito além de regras ou dinheiro dado, sendo antes um hábito construído em casa e reforçado pelo exemplo dos adultos. Ao unir a brincadeira do cofrinho físico com as possibilidades do mundo digital, pais, avós, tios e outros cuidadores podem oferecer às crianças uma experiência completa, que combina diversão, disciplina e preparação para o futuro financeiro. 

Do cofrinho físico ao digital

Diferentes ferramentas digitais também permitem a simulação de um cofrinho, com valores separados por metas.

Se o porquinho tradicional ainda é a forma mais lúdica de iniciar a educação financeira das crianças, o mundo digital traz ferramentas que ajudam a criar a lógica de poupar, adaptada ao cenário atual. Recursos oferecidos por bancos e aplicativos permitem que os pequenos continuem aprendendo a guardar aos poucos, definir objetivos e acompanhar o próprio progresso.

Caixinhas digitais

As chamadas caixinhas digitais funcionam como pequenos cofrinhos dentro da conta bancária, permitindo separar o dinheiro em diferentes objetivos. Assim, a criança pode visualizar quanto já guardou para um brinquedo, um passeio ou até uma viagem, o que mantém o aprendizado prático e motivador.

Poupança automática

Outro recurso que pode ser usado de forma educativa é a poupança automática, que transfere pequenas quantias para uma reserva em datas pré-definidas. Essa ferramenta mostra na prática a importância da disciplina e da constância, sem depender apenas da vontade do momento.

Aplicativos de finanças

Existem diversas opções de aplicativos que simulam cofrinhos e permitem que a criança acompanhe o progresso do montante guardado. Priscila recomenda que os cofrinhos virtuais sejam utilizados depois que a criança já tem uma vivência com o dinheiro físico. “Aplicativos como o Powpay oferecem ferramentas para o desenvolvimento da criança e para o controle dos pais”, salienta.

O exemplo da família na educação financeira

A relação dos pais com o dinheiro é repassada aos filhos, que aprendem pelo exemplo

Na infância, as referências mais fortes vêm de dentro de casa. Quando os pais e outros responsáveis mostram organização financeira, conversam de forma aberta e natural sobre escolhas de consumo e o valor do dinheiro, a criança aprende que lidar com recursos faz parte da vida. Esse contato cotidiano ajuda a formar noções básicas, como planejar antes de comprar e compreender que o dinheiro tem limites. Quanto mais cedo esse aprendizado acontece, mais fácil fica para a criança desenvolver hábitos saudáveis de consumo.

Para Priscila, essa base contribui para que, na vida adulta, a criança tenha um relacionamento saudável com o dinheiro,  sabendo tomar boas decisões financeiras e, inclusive, lidar de maneira saudável com essas escolhas. “Quando isso não acontece, o adulto pode ter, inclusive, problemas de saúde mental”, reforça.

Na vida adulta, esses ensinamentos se transformam em comportamento. Quem cresceu em um ambiente onde o dinheiro não era tabu, mas assunto de diálogo sincero, tende a ter mais consciência nas escolhas financeiras e mais responsabilidade ao assumir compromissos. A clareza transmitida na infância contribui para que o adulto evite dívidas desnecessárias, planeje metas e saiba tomar decisões com segurança. Em vez de repetir padrões de ansiedade ou desorganização, leva consigo a ideia de que falar sobre dinheiro é normal — e que planejar é essencial para viver com tranquilidade.

Educação financeira de adolescentes

Quando chegam à adolescência, muitos jovens passam a ter acesso ao cartão de débito ou até crédito, seja em contas digitais próprias ou vinculadas aos pais. Esse passo é importante para a autonomia financeira, mas também exige cuidados redobrados. É fundamental orientar sobre o uso responsável, destacando a importância de registrar gastos, planejar compras e evitar compras por impulso.

Outro ponto essencial é reforçar que o cartão é pessoal e intransferível. Emprestar para amigos ou familiares pode gerar problemas de segurança e responsabilidade financeira, além de dificultar o controle sobre os próprios gastos. Aprender a usar o cartão com consciência, respeitando limites e entendendo que o dinheiro precisa ser administrado, é uma lição que ajuda o adolescente a se preparar para a vida adulta com mais segurança e independência.

Priscila Rossi lembra que, nessa fase, o desafio é equilibrar autonomia e responsabilidade. “O acesso a contas digitais, cartão e Pix não pode vir desacompanhado de orientação”, reforça. Ela dá algumas dicas:

  • Lembre-se que, nessa fase, o adolescente busca o pertencimento ao grupo de amigos e isso, muitas vezes, pode estar ligado ao consumo.
  • Converse sobre limites e objetivos.
  • Inclua o adolescente em decisões familiares simples: quanto destinar a uma viagem, como escolher um celular, etc.
  • Estimule que o adolescente aprenda a fazer gestão do dinheiro.
  • Evite discursos de “proibição” e “controle total”. Esse período já é naturalmente conflituoso, então o ideal é adotar uma postura de guia e não de fiscal.

Sendo o exemplo e incentivando desde cedo o hábito de poupar, pais e responsáveis ajudam a criar adultos mais conscientes, organizados e preparados para lidar com seus próprios recursos, mostrando, ainda, que a disciplina, a paciência e a organização são caminhos para realizar sonhos em qualquer fase da vida.