CLT x PJ: ser contratado ou autônomo, o que é melhor?

Entenda os prós e contras de cada modelo de trabalho para escolher com consciência.

Organizar as finanças

/ 26 Jun 2025 / 5 min. leitura
Prós e contras de ser CLT ou PJ

Nos últimos anos, o número de trabalhadores autônomos e pessoas jurídicas (PJs) cresceu exponencialmente no Brasil. Segundo dados do IBGE, em 2024 o país ultrapassou a marca de 26 milhões de pessoas atuando por conta própria — o maior número já registrado. Ao mesmo tempo, a flexibilização das relações de trabalho, impulsionada pelas transformações digitais e pelas mudanças na legislação, tem levado muitos jovens a enxergar o regime CLT como ultrapassado.

Nas redes sociais, a frase “ser CLT” muitas vezes surge associada a um estilo de vida limitado, à ideia de “viver para trabalhar” ou até de “fracasso”. Já a imagem do PJ é frequentemente ligada a liberdade, mais renda e sucesso. Mas será que essa comparação faz sentido na prática?

A ascensão dos influenciadores que trabalham por conta própria, somada à proliferação de vagas “PJ” em setores como tecnologia, comunicação e marketing, reforça a narrativa de que ser contratado com carteira assinada é coisa do passado. De fato, há benefícios na autonomia — como flexibilidade de horários e possibilidade de ganhos maiores. No entanto, há também riscos e responsabilidades que muitos só descobrem depois de deixar a CLT.

Neste cenário, surge a pergunta fundamental: ser PJ é realmente mais vantajoso do que ser CLT? Para responder, é preciso entender o que está em jogo em cada regime.

O que é CLT e qual sua importância? 

o que é ser CLT

A CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) foi criada em 1943, durante o governo de Getúlio Vargas, como uma forma de organizar, regulamentar e proteger as relações entre empregadores e empregados. Ela garante direitos fundamentais como férias remuneradas, 13º salário, FGTS, licença maternidade/paternidade, seguro-desemprego, horas extras e aviso prévio.

Esses direitos não são "presentes", mas conquistas históricas que funcionam como um colchão de proteção social, especialmente em momentos de crise, doença ou desemprego. Além disso, a CLT ainda tem um papel essencial no presente e no futuro, principalmente para quem busca segurança, estabilidade e planejamento de longo prazo.

CLT ou PJ: quais as principais diferenças?

Ser CLT significa trabalhar com carteira assinada, com um contrato formal e direitos garantidos pela legislação trabalhista. Já o PJ (Pessoa Jurídica) é, na prática, um trabalhador autônomo que presta serviços como empresa — emitindo nota fiscal, pagando tributos e gerenciando sua própria estrutura.

A principal diferença está na relação com o contratante. O CLT é um funcionário com vínculo empregatício; o PJ é um prestador de serviço sem vínculo formal. Isso implica obrigações e riscos diferentes para cada lado.

Entendendo os descontos e os custos de cada modelo

Muitos jovens acreditam que o “desconto em folha” é uma desvantagem da CLT. De fato, o salário bruto sofre reduções com INSS, imposto de renda, contribuição sindical e outros encargos, o que impacta o valor final recebido.

Por outro lado, um PJ pode parecer que “ganha mais” por receber o valor cheio, mas é ele quem precisa arcar com:

  • Gastos com alimentação e transporte
  • INSS autônomo (ou contribuição como MEI)
  • Plano de saúde
  • Contabilidade
  • Impostos (ISS, IRPJ, etc.)
  • Férias, 13º e períodos sem trabalho que não são remunerados

Ou seja, o que parece ser vantagem pode rapidamente se transformar em prejuízo se o PJ não tiver planejamento.

Vantagens e desvantagens: além do valor na conta

quando vale a pena ser CLT ou PJ

Trabalhar como CLT traz uma série de vantagens que vão além do valor depositado na conta ao final do mês. Uma das principais é a estabilidade e a proteção legal. Trabalhar com carteira assinada significa ter um vínculo formal com a empresa, o que garante estabilidade relativa e proteção contra demissões arbitrárias. Em caso de demissão sem justa causa, o trabalhador tem direito ao aviso prévio, multa de 40% sobre o FGTS, seguro-desemprego e saque do saldo do FGTS.

Além disso, há benefícios garantidos por lei, como os 30 dias de férias remuneradas por ano com adicional de um terço do salário, o 13º salário e o depósito mensal de 8% do salário no FGTS, que pode ser utilizado para a compra de imóvel ou retirado em situações específicas. A contribuição automática ao INSS também assegura o acesso à aposentadoria, bem como a outros benefícios importantes, como licença maternidade ou paternidade, auxílio-doença e auxílio-acidente e outros benefícios que oferecem suporte em diferentes fases ou imprevistos da vida.

Outra vantagem é o acesso mais fácil a crédito e financiamentos. Com um salário fixo e comprovado, o trabalhador CLT tem maior facilidade para obter crédito, como empréstimos e financiamentos imobiliários ou de veículos, com taxas geralmente mais baixas, por representar menor risco ao banco ou instituição financeira.

Por outro lado, quem trabalha como CLT tem menor flexibilidade. A jornada de trabalho é rígida: normalmente 8 horas por dia, com horário de entrada e saída definidos. Faltas e atrasos precisam ser justificadas, e há menos liberdade para escolher projetos, ambientes de trabalho ou horários. A carga horária também é pré-definida.  A maioria dos contratos CLT exige o cumprimento da carga semanal de 44 horas, com controle de ponto e regras específicas para horas extras. Isso pode dificultar o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, especialmente para quem busca mais autonomia.

Também há os descontos em folha, fazendo com que o salário recebido seja menor do que o valor bruto. Isso pode dar a falsa impressão de que se “ganha menos” — embora os descontos sustentem direitos e benefícios futuros.

Agora, quem trabalha como pessoa jurídica (PJ) tem potencial de ganhos maiores. Sem os descontos obrigatórios da CLT e com liberdade para negociar valores, um PJ pode faturar valores mais altos. É comum, por exemplo, um PJ receber R$10 mil por um trabalho que seria remunerado em R$6 mil no regime CLT. Como prestador de serviço, é o profissional que define, também,  quando, como e de onde trabalha. Pode aceitar diferentes projetos, fazer pausas no meio do dia, tirar férias quando quiser (desde que se planeje financeiramente) e até viajar enquanto trabalha.

Sem dúvidas, a flexibilidade e a autonomia sobre a carreira são os principais atrativos. Quem é PJ controla seus caminhos profissionais, escolhe os clientes e projetos, pode montar sua própria empresa e desenvolver várias fontes de renda. Isso é especialmente atrativo para perfis empreendedores ou profissionais criativos.

Porém, não há proteção contra demissão, férias remuneradas, 13º, FGTS ou licença médica. O contrato pode ser encerrado a qualquer momento, sem aviso, e o profissional precisa lidar com períodos de instabilidade sem suporte do Estado ou da empresa contratante.

Diferente do CLT, que recebe salário mesmo em meses de menor produtividade, o PJ só ganha se estiver trabalhando ou faturando. Isso torna essencial a criação de uma reserva de emergência e um bom planejamento para cobrir períodos ociosos, de doença ou de busca por novos contratos. O PJ também precisa administrar seus próprios impostos (INSS, DAS, ISS etc.), gerar boletos, emitir notas fiscais, reservar dinheiro para férias, impostos e aposentadoria. Sem organização, é fácil cair em desequilíbrio financeiro.



Desconto em folha: realmente “perda de dinheiro”?

Nem sempre. O desconto em folha na CLT representa contribuições para benefícios futuros. Enquanto um PJ pode receber R$8 mil líquidos por mês, um CLT que ganha R$6 mil brutos talvez tenha R$4,8 mil líquidos — mas terá direito a férias, 13º, plano de saúde, aposentadoria, seguro-desemprego e mais estabilidade. Enquanto o PJ terá que arcar com todos esses custos e, na prática, talvez sua remuneração final seja ainda menor.

Ou seja, não ter desconto não significa automaticamente ter mais dinheiro. Significa que é o próprio trabalhador quem terá de arcar com todos os custos — inclusive os invisíveis.

Quando vale mais a pena ser CLT? E quando ser PJ compensa?

Ser CLT vale mais a pena quando:

  • Você valoriza segurança e estabilidade
  • Está começando a carreira ou precisa de rotina
  • Pretende financiar algo ou depender de crédito
  • Quer ter benefícios sem se preocupar em administrá-los

Ser PJ pode valer a pena quando:

  • Você tem perfil empreendedor e autônomo
  • Tem conhecimento sobre finanças e organização
  • Tem uma reserva financeira para aguentar períodos entre contratos
  • Tem renda acima da média CLT da sua área
  • Consegue negociar contratos mais lucrativos

Para saber o que vale mais a pena no seu caso, uma boa ferramenta é a calculadora PJ x CLT. Você pode testar a da Mobills ou da Contabilizei para simular seu cenário real.

Dicas práticas para autônomos: como se proteger financeiramente

dicas financeiras para quem é PJ

Ao optar pelo trabalho como autônomo ou PJ, o profissional ganha autonomia, mas também assume responsabilidades que antes eram do empregador. Por isso, organização e planejamento financeiro são essenciais para garantir estabilidade, segurança e qualidade de vida.

Veja algumas dicas:

  • Crie uma reserva de emergência de pelo menos 6 meses de gastos: sem um salário fixo ou garantia de estabilidade, o PJ precisa estar preparado para períodos de baixa demanda, perda de contratos, imprevistos de saúde ou férias não remuneradas. Ter uma reserva financeira que cubra pelo menos seis meses do custo de vida é fundamental para atravessar esses períodos com tranquilidade e sem dívidas. O ideal é manter essa reserva em investimentos de alta liquidez e baixo risco, como o Tesouro Selic ou CDBs com liquidez diária.

  • Contribua com a Previdência (INSS autônomo ou plano privado): diferente do CLT, o autônomo não tem contribuição automática para a aposentadoria. Por isso, é essencial fazer uma contribuição mensal ao INSS (como contribuinte individual ou MEI) para garantir acesso a benefícios como aposentadoria, auxílio-doença e salário-maternidade. Além disso, é possível complementar com previdência privada ou outros investimentos de longo prazo.

  • Tenha um plano de saúde: como o PJ não conta com plano de saúde corporativo, é importante contratar um plano individual ou familiar. Afinal, problemas de saúde podem gerar gastos inesperados e comprometer sua renda. Escolha um plano adequado ao seu perfil e orçamento, e lembre-se: estar saudável é também uma forma de proteger sua renda.

  • Separe uma parte mensal para “férias” e “13º salário”: como o autônomo não recebe salário durante as férias nem conta com o 13º, é fundamental criar uma reserva específica para essas finalidades. Uma boa prática é reservar entre 8% e 10% da renda mensal em duas contas separadas: uma para as férias e outra para o 13º. Assim, é possível fazer pausas sem comprometer o orçamento — e até planejar viagens ou descanso com mais liberdade.

  • Faça um controle rigoroso de receitas e despesas: a chave para o sucesso financeiro como PJ está no controle total das entradas e saídas de dinheiro. Utilize planilhas, aplicativos ou plataformas de gestão financeira para acompanhar quanto você ganha por projeto, quais são seus custos fixos e variáveis, e onde pode economizar. Essa clareza permite tomar decisões melhores, precificar serviços corretamente e evitar surpresas desagradáveis.

  • Invista para aposentadoria: além de contribuir com o INSS, é essencial construir uma estratégia de investimentos de longo prazo para garantir qualidade de vida na aposentadoria. Isso pode incluir aplicações como:
  • Tesouro Direto (Tesouro IPCA+ ou Tesouro Selic), que oferecem segurança e rentabilidade real;
  • Previdência privada (PGBL ou VGBL), com foco em aposentadoria e benefícios fiscais;
  • Fundos de investimento ou ações, dependendo do seu perfil de risco e objetivos.

Quanto antes você começar, melhor — o tempo é o maior aliado dos juros compostos.

Informação é poder: escolha com consciência

A ideia de que CLT é sinônimo de fracasso é um mito perigoso. Cada regime tem seu papel, seus benefícios e seus desafios. Conhecer seus direitos, deveres e implicações financeiras é essencial para tomar decisões conscientes, que façam sentido para seu momento de vida, perfil profissional e objetivos de longo prazo.

No fim, sucesso não está no tipo de contrato — está em fazer escolhas informadas, sustentáveis e alinhadas ao que você quer construir.