O ano é 2026, mas os obstáculos encarados pela população negra continuam, em grande medida, os mesmos de décadas atrás. E, quando o assunto é dinheiro, o racismo se manifesta de forma persistente entre a maioria dos brasileiros, especialmente considerando que 55,5% da população se autodeclara negra, segundo o IBGE, e encontra barreiras significativas no acesso a oportunidades financeiras.
A desigualdade racial revela, portanto, um problema que vai além das relações sociais e de questões históricas: ela está enraizada na estrutura econômica do país e gera custos invisíveis na vida financeira da maioria dos cidadãos. A exclusão se reflete em decisões de contratação, promoção e remuneração de pessoas negras, perpetuando ciclos de desigualdade.
Essas barreiras estruturais e discriminações no mercado de trabalho e em outras esferas da sociedade reduzem oportunidades de crescimento, limitam a renda e dificultam a formação de patrimônio, fazendo com que a desigualdade racial se reflita diretamente na saúde financeira dos cidadãos.
Soma-se a isso as limitações no acesso ao crédito, especialmente por parte das mulheres negras, como mostra o Relatório de Cidadania Financeira 2025, lançado pelo Banco Central em abril de 2026. As restrições também abrangem investimentos e outros recursos financeiros, o que amplia ainda mais as disparidades e limita a mobilidade econômica.
Como o racismo impacta a vida financeira
Para milhões de brasileiros, a desigualdade racial se estende também à renda. Entre 2012 e 2023, a população negra recebeu, em média, o equivalente a 58,3% do salário da população branca. É que mostra o levantamento do Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais (Cedra), com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE, divulgada na Agência Brasil.
Em 2012, a renda média das pessoas negras era de R$1.049,44, enquanto a das pessoas brancas chegava a R$1.816,28. Já em 2023, os valores passaram para R$2.199,04 e R$3.729,69, respectivamente. Apesar de uma leve redução na diferença ao longo dos anos, a desigualdade permanece e continua limitando as oportunidades e a estabilidade financeira da população negra.
Veja outros dados importantes:
- Diferença salarial: uma pesquisa do IBGE realizada em 2024, que analisou o rendimento por hora, mostrou que trabalhadores brancos recebiam, em média, 64% a mais do que pessoas pretas ou pardas.
- Menor acesso ao crédito: o Brasil possui 16 milhões de empreendedores negros e, segundo o Sebrae, apenas 26% deles conseguiram acessar algum tipo de crédito.. Maior taxa de juros: quando finalmente conseguem crédito, as condições costumam ser piores, ou seja, com maior taxa de juros e exigências mais rígidas, restringindo o crescimento do negócio.
- Menor herança familiar: famílias negras acumulam menos patrimônio ao longo da vida, o que significa que a transmissão de riqueza por meio de herança é menor. Essa é uma das razões que perpetua a desigualdade entre gerações, já que famílias brancas conseguem transferir imóveis, negócios e outros bens.
Esses fatores interferem de forma considerável na vida financeira da população negra, reduzindo a capacidade de formar reservas financeiras e realizar investimentos de longo prazo. Eles também limitam a geração de riqueza intergeracional, pois famílias negras têm menos patrimônio para transmitir a filhos e netos, perpetuando, assim, desigualdades históricas. O cenário ainda dificulta o planejamento da aposentadoria, deixando muitas pessoas negras mais vulneráveis e sem segurança financeira na terceira idade.
Como romper as barreiras estruturais e mudar essa realidade? O empreendedorismo e a educação financeira surgem como algumas das respostas para furar a bolha das restrições econômicas.
Oportunidades para empreender na economia preta
Empresas, organizações sociais e instituições públicas e privadas vêm criando programas que fomentam o afroempreendedorismo, oferecendo crédito, mentoria e capacitação como forma de ampliar oportunidades, fortalecer negócios e promover maior equidade econômica.
O crescimento da economia preta no Brasil tem conseguido abrir espaços para que empreendedores alavanquem seus negócios em setores como varejo, beleza, alimentação, tecnologia e serviços. Mais do que gerar renda, o movimento fomenta pertencimento e expande a representatividade, unindo empreendedorismo e impacto social.
A pesquisa Empreendedorismo Negro no Brasil, realizada pelo Sebrae em 2025 a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua Trimestral, do IBGE, mostra que o número de empreendedores negros subiu de pouco mais de 13 milhões, em 2014, para mais de 16 milhões em 2024, registrando um crescimento de 22,1% nos últimos 10 anos.
Ou seja, mesmo diante de inúmeras dificuldades, a economia preta surge abastecida de possibilidades, contribuindo para a geração de renda e redução das desigualdades.
#1 Iniciativas de aceleração da economia preta
Programas de aceleração específicos para negócios liderados por pessoas negras oferecem mentorias, networking e acesso a investidores, ajudando startups e pequenos negócios a expandir e a consolidar-se no mercado. Conheça algumas iniciativas:
- BlackRocks Startups: aceleradora brasileira fundada em 2016 por Maitê Lourenço. Apoia afroempreendedores com programas e eventos que promovem discussões e mentorias para quem deseja tirar as ideias do papel.
- Vale do Dendê: o projeto atua como aceleradora de startups com sede em Salvador, conectando negócios selecionados ao mercado de investimentos, com programas e editais voltados para alimentação, áudio e economia criativa.
- Movimento Black Money: ecossistema de empreendedorismo que trabalha pela autonomia financeira da comunidade negra brasileira, promovendo a circulação de capital entre pessoas pretas para reduzir a desigualdade racial. Atua no fortalecimento de afroempreendedores, educação financeira, capacitação digital e conexão entre consumidores e negócios negros.
- Feira Preta Cria: o programa de aceleração de mulheres negras e indígenas, realizado pela Preta Hub, foi criado a partir de pesquisas do Instituto Feira Preta e parceiros internacionais. A iniciativa atua com mentorias, formação em gestão e negócios, além de networking e desenvolvimento de mercado.
#2 Programas de empreendedorismo para pessoas negras
Oferecem capacitação, acesso ao crédito, consultoria e networking para que empreendedores negros desenvolvam seus negócios e aumentem a competitividade.
- PretaHub: rede de criatividade, inventividade e tendências pretas, liderada por Adriana Barbosa. O hub conta com a Feira Preta, maior festival de cultura e empreendedorismo negro da América Latina, Afrolab, Bioma PretaHub, entre outros.
- AfroSaúde: fundada em Salvador, a plataforma conecta pacientes a profissionais negros da área da saúde e bem-estar, promovendo representatividade no atendimento. O objetivo é melhorar o acesso, a qualidade do cuidado e reduzir desigualdades raciais na saúde por meio da tecnologia.
#3 Redes de mentoria para mulheres negras
As redes de mentoria conectam mulheres negras com profissionais experientes, com o objetivo de fornecer orientação estratégica, apoio emocional e troca de experiências, além de fortalecer liderança e protagonismo feminino no mercado.
- Preta Potências: faz parte do PretaHub e é voltado ao mercado da economia criativa. Em 2022, contou com a parceria do Instituto Alok e da Cerveja Black Princess. Foram 20 mulheres negras e afro-indígenas, de todas as regiões do Brasil, contempladas com mentorias e R$20 mil reais de incentivo para cada.
- Negras na CX (NNCX): comunidade que promove mentoria, conteúdos e networking para mulheres negras na área de Customer Experience. O projeto busca expandir a visibilidade, liderança e crescimento profissional no setor.
- Indique: rede que realiza mentorias coletivas e workshops para mulheres negras, com foco em carreira e projetos. Atua no fortalecimento de conexões e no desenvolvimento profissional por meio de encontros periódicos.
- Afroricas: promove o desenvolvimento de mulheres negras por meio de workshops e mentorias em temas como carreira e comunicação. O objetivo é fortalecer autoestima, posicionamento profissional e habilidades práticas, como marketing digital e inteligência emocional.
- LÍDERNEGRA: lançado em 2021, o programa de mentoria é voltado a mulheres negras que desejam acelerar suas carreiras e alcançar posições de liderança. Oferece mentoria com executivas, capacitação e networking, com ênfase na representatividade no ambiente corporativo.
#4 Fundos de investimento com recorte racial
Os fundos de investimento focados em diversidade destinam capital a negócios liderados por pessoas negras, fomentando crescimento econômico, geração de empregos e redução das desigualdades raciais.
- Fundo Semente Preta: iniciativa do Nubank, lançada em 2021, com até R$1 milhão para investir em startups brasileiras fundadas ou lideradas por pessoas negras, com foco em empresas de tecnologia em estágio inicial. A ação visa combater o racismo estrutural, aumentar a diversidade no ecossistema de startups e oferecer mentorias.
- Fundo Baobá para Equidade Racial: fundo patrimonial brasileiro gerido por pessoas negras, dedicado a enfrentar o racismo e promover a equidade racial. Desde 2011, já apoiou mais de 1.200 iniciativas, impactando indiretamente mais de 1,3 milhão de pessoas.
#5 Programas de capacitação de pessoas negras
São iniciativas que ensinam competências importantes para o mercado ou para o planejamento financeiro, incluindo educação sobre crédito, poupança e investimentos.
- Grana Preta: programa de emancipação financeira direcionado às pessoas de baixa renda e microempreendedores, oferecendo cursos e métodos de capacitação. A iniciativa promove educação financeira sob uma perspectiva coletiva.
- Negrana Finanças: startup de impacto social que fomenta educação financeira como uma ferramenta para melhorar a qualidade de vida das famílias negras, crescimento econômico e inclusão social e financeira.
- Black STEM: programa de bolsas de graduação do Fundo Baobá, com apoio da B3 Social e parceria da BRASA, voltado a estudantes negros e negras brasileiros aprovados em universidades no exterior, em cursos das áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM).
#6 Iniciativas dos bancos
Alguns bancos criam produtos direcionados à inclusão financeira de pessoas negras, como cartões de crédito temáticos, linhas de microcrédito, programas de educação financeira e acesso a capital para negócios liderados por negros. A exemplo está a Conta Black, hub de produtos e serviços que incentiva a inclusão financeira, maior autonomia e acesso a oportunidades bancárias.
Quer saber mais sobre essas iniciativas? Confira neste episódio do podcast da Febraban, que contou com a participação de Fernanda Ribeiro, fundadora da Conta Black, e Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta e da Preta Hub. Elas discorrem sobre suas iniciativas, desafios e apresentam dados sobre a economia preta:
Educação financeira como ferramenta de redução das desigualdades
A educação financeira também é uma ferramenta de enfrentamento às desigualdades raciais. Mais do que aprender a cuidar do dinheiro, poupar ou investir, ela contribui para escolhas financeiras conscientes, planejamento e autonomia. Organizar o orçamento, planejar gastos e pensar no futuro podem ajudar a transformar realidades.
Para apoiar esse processo, o portal Meu Bolso em Dia reúne conteúdos educativos para quem quer dar os primeiros passos ou aprofundar conhecimentos sobre finanças. Também disponibiliza ferramentas gratuitas, como planilhas orçamentárias ou de precificação de produto, listinhas de compras e e-books, entre outros. Em breve, terá um chat interativo para tirar dúvidas sobre o tema.
Outra ferramenta relevante é a Plataforma Meu Bolso em Dia, que oferece cursos desenvolvidos por especialistas para ajudar você a melhorar a sua saúde financeira. A partir de um teste para entender como anda a sua realidade financeira, sugere conteúdos personalizados para o seu momento de vida. Tudo de forma gratuita e com linguagem simples e acessível.
Como combater o racismo financeiro
Enfrentar o racismo financeiro no Brasil exige um esforço coletivo da sociedade civil, empresas e governos. Veja algumas dicas de ações que você adotar no dia a dia:
- Consuma de empreendedores negros: priorize produtos e serviços oferecidos por empreendedores negros. Dessa forma, você fortalece a circulação de renda na comunidade e incentiva o crescimento de pequenos negócios.
- Pratique o consumo consciente: escolha consumir de empresas com propósito social e que promovam equidade racial, tanto na gestão quanto na contratação.
- Apoie e divulgue iniciativas pretas: dê visibilidade por meio de suas redes sociais e contatos profissionais a iniciativas, como projetos, feiras e marcas, lideradas por pessoas negras.
- Engaje-se em movimentos e redes: participe de iniciativas, grupos e comunidades que promovam o empreendedorismo negro, a equidade racial e a troca de conhecimento, reforçando conexões e impacto coletivo.
- Valorize intelectuais negros: estude gestão a partir das ideias de intelectuais negros e contribua para a construção de uma nova visão de mundo financeiro.
- Recomende os negócios e profissionais negros: essa é uma maneira de incentiva a economia preta. Por isso, sempre que conhecer um serviço, produto ou profissional negro de qualidade, compartilhe a indicação.
- Denuncie atitudes racistas: ao se deparar com o racismo financeiro ou observar comportamentos como tratamentos diferenciados dados a pessoas negras.
- Incentive políticas justas: pressione e apoie políticas de inclusão financeira, capacitação e fomento à economia preta.




