Mulheres em tecnologia

Como derrubar mitos e aproveitar as oportunidades de carreira em uma das áreas com a maior oferta de empregos no mundo.

Organizar as finanças

/ 06 Mar 2026 / 5 min. leitura
Iniciativas ampliam acesso feminino à área de tecnologia

Muito antes de os computadores fazerem parte de nosso dia a dia, uma jovem matemática britânica acreditava que as máquinas poderiam executar tarefas seguindo instruções detalhadas, e não apenas realizar contas simples. Ao estudar um projeto de equipamento que ainda nem havia sido construído, ela fez um passo a passo explicando como ele poderia resolver problemas. A jovem era Ada Lovelace. 

No século 19, ela colocou no papel um conjunto organizado de comandos que é considerado o algoritmo que abriu caminho para a moderna programação de computadores. Anos mais tarde, outras pesquisadoras contribuíram para a consolidação da área, como Grace Hopper, que participou do desenvolvimento de linguagens que ajudaram a ampliar o uso dos computadores. 

Ainda assim, a presença feminina no setor é inferior à masculina. De acordo com o estudo W-Tech 2025, realizado pela Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro (Softex), apenas 19,2% dos especialistas em TI no Brasil são mulheres. Isso representa pouco menos de 90 mil profissionais em um universo de quase meio milhão de trabalhadores.

Buscando mudar essa realidade, desde 2024 o programa Mulheres em Cyber, do Febraban Cyberlab, busca estimular o ingresso e a permanência feminina na tecnologia. “Cyber e tecnologia são lugares de mulher, sim. O laboratório está aqui para que elas possam estudar, trabalhar e sentirem-se bem-vindas”, afirma Bruna Bazarin Mattara, especialista em segurança cibernética na Febraban e organizadora do programa. 

O espaço conta com rodas de conversa e workshops que visam não apenas a troca de conhecimento entre mulheres que atuam diretamente no mercado de tecnologia e segurança cibernética, como também promover o pertencimento, dar visibilidade e fortalecer o protagonismo feminino em um campo essencial para a inovação, a resiliência digital e a transformação social. 

Ao falar sobre o projeto, Bruna revisitou a própria trajetória na área, apontando estratégias e aprendizados que podem servir de referência para outras mulheres interessadas na área. Inspire-se com a história dela e conheça os desafios e oportunidades que a área de tecnologia pode oferecer.

4 mitos sobre  mulheres na tecnologia 

mitos e verdades sobre mulheres em tecnologia
Bruna Bazarin Mattara, especialista em segurança cibernética na Febraban: aos 13 anos, ela era a única menina em uma turma de 16 alunos em um curso de hardware e software.

A ideia de que tecnologia é um espaço predominantemente masculino costuma ser tratada como algo natural. No entanto, a própria história da computação mostra que a presença feminina já foi mais expressiva e que a mudança desse cenário está relacionada a fatores sociais e institucionais, não à capacidade técnica.

1. Tecnologia não é coisa de mulher

Na década de 1950, entre 30% e 50% dos programadores eram mulheres, e a atividade era vista como uma carreira compatível com o perfil feminino, como registrou a revista Cosmopolitan ao publicar uma matéria intitulada Computer Girls, de 1967. 

Antes disso, nos anos 1940, o desenvolvimento do primeiro computador digital eletrônico de grande escala, chamado ENIAC, contou com o trabalho de programadoras responsáveis por calcular operações e criar instruções para o funcionamento da máquina. Entre elas estava Jean Bartik, que atuou ao lado de outras mulheres na execução das tarefas consideradas repetitivas e detalhistas.

Apesar da relevância do trabalho, essas profissionais não foram nomeadas em registros de imprensa da época, nem convidadas para eventos de celebração do projeto. À medida que a programação passou a ser reconhecida como uma atividade de maior complexidade intelectual e os salários cresceram, a carreira se tornou mais disputada por homens. 

Organizações profissionais foram formadas e, gradualmente, a contratação feminina foi desencorajada. A redução da presença das mulheres, portanto, está ligada a processos de valorização econômica e corporativismo, e não a limitações técnicas.

Essa mudança histórica ajuda a explicar por que ainda hoje muitas meninas crescem sem referências próximas na área. A percepção de que tecnologia não é um espaço para elas se retroalimenta e influencia escolhas profissionais desde cedo. Em um setor que projeta expansão e enfrenta escassez de mão de obra qualificada, ampliar o acesso passa também por rever esses estereótipos.

A trajetória de Bruna Bazarin Mattara reflete esse desafio. Aos 13 anos, ela era a única menina em uma turma de 16 alunos em um curso de hardware e software. Segundo ela, o seu primeiro obstáculo foi interno. “Eu precisei entender que eu sou capaz, e que podia fazer aquilo tão bem quanto os homens.”

2. É preciso ser um gênio da matemática

A ideia de que a tecnologia é restrita a pessoas com desempenho excepcional em matemática ainda afasta muitas mulheres, antes mesmo do primeiro curso ou da primeira candidatura a uma vaga. Embora conhecimentos técnicos sejam importantes, a área é mais ampla e envolve diferentes perfis profissionais. 

Segundo Bruna, há espaço para quem trabalha com investigação de incidentes, análise de dados, experiência do usuário, comunicação, gestão de projetos e desenvolvimento de políticas de segurança, entre outras frentes.

No sistema financeiro, por exemplo, o Febraban Cyberlab organiza suas atividades em diferentes pilares, que incluem treinamento, simulação, inteligência, inovação e padronização. Bruna afirma que compreender essa diversidade é o primeiro passo para quem deseja ingressar na área. “É preciso entender o que cada área faz e buscar dentro delas algo que você se familiarize.”

Além da cibersegurança, outras frentes em expansão incluem engenharia de dados, inteligência artificial e experiência do usuário. O estudo W-Tech 2025, do Observatório Softex, aponta que, para que o setor de TI brasileiro alcance a paridade até 2030, seria necessário incorporar 53,5 mil novas mulheres por ano. No ritmo atual, de 15,6 mil contratações anuais, o equilíbrio só ocorreria em 2110. 

Ou seja, espaço para ocupar, existe, especialmente em um mercado em expansão, como o de tecnologia. Há sinais de avanço e as mulheres já representam 29,8% das concluintes em cursos de inteligência artificial no país, superando a média global, e somam 17% da força de trabalho em cibersegurança.

3. O ambiente é sempre hostil

Outro argumento para afastar mulheres das áreas tecnológicas é o de que o ambiente de tecnologia é necessariamente fechado ou pouco receptivo às mulheres. Mas isso não significa que a transformação não esteja em curso. Muitas empresas estão adotando políticas ativas de diversidade e inclusão (D&I) para mudar essa cultura.

Foi esse diagnóstico, inclusive, que motivou a criação do programa Mulheres em Cyber. “Antes do programa nascer, percebíamos uma baixa adesão de mulheres nessas atividades. Muitas vezes, quando elas estavam presentes, ficavam mais retraídas. Não era um ambiente em que se sentiam acolhidas”, afirma Bruna. A constatação levou à formulação de um espaço voltado à troca de experiências e à formação técnica conduzida por profissionais mulheres. A proposta é combinar capacitação com construção de rede e referências profissionais, reduzindo a sensação de isolamento que ainda pode marcar a trajetória feminina na área. 

Ao transformar o ambiente e ampliar a visibilidade, iniciativas desse tipo buscam enfrentar o problema estrutural sem tratá-lo como algo permanente. E o Mulheres em Cyber é a prova de como isso funciona: logo em seu primeiro evento, mais de 350 mulheres se reuniram para trocar experiências e conhecimento.

4. Já é tarde para começar

A ideia de que existe uma “hora certa” para começar a atuar na área tecnologia não acompanha a realidade do mercado atual. Sempre é tempo de aprender e se especializar, como mostra Bruna, que, ao longo de sua carreira, migrou de áreas e buscou formações complementares até se estabelecer na área de cibersegurança. 

Para quem deseja fazer o mesmo, ela dá uma dica: “não inicie uma nova jornada tentando abraçar tudo”. A amplitude do setor pode intimidar quem chega depois. “Por isso, o melhor é escolher o nicho em que você deseja seguir. Dentro dele, entenda os pilares estruturais e foque em uma ou duas funções, buscando nelas algo que você se familiarize”. 

Esse processo passa por perguntas concretas: em qual dessas funções eu me vejo atuando daqui a três ou cinco anos? Eu me sentiria realizada analisando eventos e respondendo a incidentes? Ou prefiro uma atuação mais estratégica, educativa ou de gestão?

Para Bruna, essa identificação é determinante porque o aprendizado técnico se sustenta melhor quando há afinidade com a atividade exercida. Mesmo que o conhecimento ainda esteja em construção, compreender o núcleo — o “core” — daquela função facilita o desenvolvimento.

A transição, portanto, não é um salto, mas uma sequência de decisões: conhecer as possibilidades, entender suas bases, delimitar um caminho e aprofundar-se nele. É esse método que transforma o “já é tarde” em planejamento de médio e longo prazo.

Oportunidades na área de tecnologia

Está pensando em perseguir uma carreira na área de tecnologia, ou deseja migrar para ela? Aqui vão algumas boas oportunidades: 

  • Bolsas em tecnologia oferecidas pela Febraban, em parceria com Contraf e Contec: são 3 mil bolsas gratuitas para capacitação de mulheres em tecnologia. Podem se candidatar mulheres de todas as regiões do país, com prioridade para aquelas em situação de vulnerabilidade socioeconômica. As aulas são 100% online, com introdução à programação, videoaulas, exercícios práticos e encontros para esclarecimento de dúvidas.
  • Bolsa Futuro Digital: voltado para quem não tem conhecimento prévio, o programa forma desenvolvedoras front-end ou back-end em um percurso presencial de seis meses. Ao final, as participantes podem ser encaminhadas para residência em empresas, aproximando a formação do ingresso efetivo no mercado de tecnologia.

No âmbito do governo federal, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) mantém políticas voltadas à inclusão e à equidade na ciência e tecnologia, em parceria com o CNPq e outros ministérios. Entre as ações estão:

  • Bolsas para mulheres negras, ciganas, quilombolas e indígenas, ampliando a presença desses grupos na pesquisa científica.
  • O programa Mulheres Inovadoras, que apoia startups lideradas por mulheres em diferentes regiões do país.
  • Iniciativas como o Centelha e o Conecta Startup Brasil, que registram participação feminina crescente no ecossistema de inovação.
  • Programas de capacitação em Tecnologias da Informação e Comunicação com reserva de vagas para mulheres, como na área de microeletrônica. 

Os desafios para mulheres no mercado de trabalho e como enfrentá-los

Formação técnica amplia oportunidades para mulheres em tecnologia

Embora o número de mulheres com ensino superior já supere o de homens no Brasil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a presença feminina ainda encontra barreiras específicas quando o assunto é progressão de carreira, mudança de área ou ocupação de cargos mais estratégicos.

Parte desses obstáculos está relacionada a fatores estruturais, como a divisão desigual do trabalho doméstico, mas outra parte tem origem em dinâmicas subjetivas que influenciam a forma como elas se posicionam profissionalmente.

Síndrome de impostora

Para muitas mulheres, o principal freio não está apenas fora, mas também na forma como avaliam a própria trajetória. Mesmo com experiência e qualificação, a ideia de que “ainda falta algo” adia candidaturas, pedidos de promoção e mudanças de área. Essa é a chamada “síndrome de impostora”, que descreve a sensação persistente de não ser capaz, mesmo diante de evidências de que você é. O fenômeno não é exclusivo das mulheres, mas pesquisas indicam que ele tem impacto mais recorrente sobre elas, especialmente em ambientes competitivos ou tradicionalmente masculinos.

O levantamento Gender Insights Report, do LinkedIn, mostra que mulheres se candidatam a cerca de 20% menos vagas do que homens. Isso acontece porque, em geral, elas tendem a aplicar a vagas apenas quando atendem a todos os requisitos listados. Já os homens costumam se inscrever mesmo quando preenchem apenas 60% das exigências.

Para Bruna, isso ficou evidente durante um workshop do Mulheres em Cyber, quando as palestrantes foram questionadas se já haviam sentido, em algum momento na carreira, que não eram capazes de mudar de área. Todas afirmaram que sim. O gesto coletivo expôs um padrão compartilhado, inclusive entre profissionais experientes.

Enfrentar a síndrome de impostora passa, primeiro, por revisar a própria narrativa interna. Em vez de se concentrar na pergunta sobre o que ainda falta, pode ser mais produtivo listar projetos concluídos, metas atingidas e situações em que habilidades foram aplicadas com resultado concreto. O exercício desloca o foco da insuficiência para evidências verificáveis de competência.

Outra estratégia envolve testar movimentos em escala menor. Em vez de esperar estar completamente pronta para uma grande mudança, a profissional pode buscar cursos curtos, projetos paralelos ou experiências complementares que ampliem seu repertório de forma gradual. O acúmulo dessas etapas tende a fortalecer a segurança para passos mais amplos.

Buscar retorno estruturado também ajuda a calibrar a autopercepção. Colegas, mentores e gestores costumam oferecer uma visão mais objetiva sobre pontos fortes e oportunidades de desenvolvimento. 

Ao mesmo tempo, é importante considerar que descrições de vagas de emprego correspondem a um candidato “ideal”, mas que raramente haverá alguém que atenda a 100% dos critérios. Para muitas empresas, capacidade de aprendizagem e adaptabilidade pesam tanto quanto o domínio técnico prévio.

Desigualdade salarial e representatividade

A diferença de remuneração entre homens e mulheres continua presente no mercado de trabalho, inclusive em setores de alta qualificação. O estudo W-Tech 2025 indica que a diferença média de remuneração pode chegar a R$ 1.618 por mês. Isso significa que mulheres recebem cerca de 19,3% a menos do que homens. Nas funções técnicas, o desnível aumenta. Programadoras recebem, em média, 25% a menos, enquanto tecnólogas ganham 29% a menos.

O desbalanceamento também aparece na representatividade feminina, inclusive em cargos de liderança. Segundo o estudo, mulheres ocupam apenas 26,2% das gerências e 13,1% das diretorias.

A distribuição varia conforme a região. Em estados como Roraima, Amapá e Maranhão, menos de 10% dos especialistas são mulheres. O recorte racial também revela concentração: 59,6% das profissionais da área são brancas, enquanto as mulheres pretas representam 5,5% do total empregado no setor.

Os números ajudam a dimensionar o problema, mas a legislação aponta caminhos formais. Em 2023, entrou em vigor a Lei nº 14.611, conhecida como Lei da Igualdade Salarial, que estabelece remuneração equivalente para trabalho de igual valor e prevê mecanismos de transparência para empresas com 100 ou mais empregados. Caso identifiquem discrepâncias, trabalhadoras podem buscar esclarecimentos internos, solicitar os relatórios de transparência e, se necessário, recorrer aos canais formais previstos na legislação.

Conexão, protagonismo e rede

Programas incentivam carreira feminina em tecnologia

Se os dados mostram desigualdades e os relatos revelam inseguranças, as redes de apoio aparecem como um dos caminhos mais consistentes de permanência e avanço na tecnologia. Mais do que grupos formais ou informais, elas funcionam como espaços de troca, mentoria e visibilidade.

“É importante criar uma corrente, e o Mulheres em Cyber busca exatamente isso”, afirma Bruna. Na prática, isso significa ter com quem trocar dúvidas, dividir inseguranças e compartilhar conquistas em um ambiente que nem sempre é diverso.

Além da iniciativa individual, existem organizações estruturadas que fortalecem essa rede e ampliam oportunidades para quem quer ingressar ou crescer na área:

  • UX para Minas Pretas: comunidade criada por e para mulheres negras com foco em experiência do usuário. Atua na formação, no compartilhamento de conhecimento e na construção de rede de apoio para quem deseja entrar ou já trabalha com UX.
  • Vai na Web: rede de tecnologia com foco em impacto social. Desenvolve formação voltada principalmente a mulheres e jovens negros periféricos, contribuindo para ampliar o acesso a carreiras no setor.
  • PretaLab: iniciativa do Olabi, é um projeto dedicado a ampliar a presença de meninas e mulheres negras nas novas tecnologias. Mantém um banco de talentos com perfis de profissionais de diferentes regiões do país.
  • WoMakersCode: comunidade que oferece educação, mentoria e programas de empregabilidade para mulheres diversas na tecnologia, com atuação em diferentes países da América Latina.
  • PrograMaria: plataforma de conteúdo e mobilização que incentiva meninas e mulheres a aprender programação e participar da produção de tecnologia. Promove informação, debate e acesso a ferramentas para os primeiros passos na área.

Mais do que oferecer cursos, essas comunidades ajudam a construir referências e ampliar redes de contato. Em um mercado onde visibilidade e indicação ainda influenciam oportunidades, fazer parte de um grupo pode abrir portas que, sozinha, seriam mais difíceis de acessar.

Quando uma mulher ocupa um espaço novo, ela amplia o caminho para que outras também cheguem lá, com menos barreiras e mais referências pelo caminho.