Falar sobre a morte ainda é um tabu no Brasil. Se já é difícil pensar na própria finitude, conversar abertamente sobre ela parece quase impossível. Mas por mais desconfortável que seja, planejar o que acontecerá quando partirmos é um gesto de amor — um cuidado com quem fica e uma forma de garantir tranquilidade em um momento inevitavelmente delicado.
De acordo com o Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep), 73% dos brasileiros afirmam sentir desconforto em tratar do tema. Essa resistência tem consequências práticas: o Relatório Anual Cartório em Números mostra que o país registrou 1,36 milhão de óbitos em 2022, mas apenas 33,5 mil testamentos foram formalizados — menos de 3% dos casos.
Uma pesquisa recente da Confederação Nacional das Seguradoras (CNSeg) mostrou, ainda, que apenas 15% dos brasileiros afirmam ter algum tipo de planejamento financeiro voltado para a sucessão ou a morte. Ou seja: a grande maioria das famílias não têm qualquer tipo de planejamento sucessório ou familiar. Isso significa que, além da dor emocional, muitos precisam lidar de forma improvisada com burocracia, custos e decisões difíceis.
Mas não precisa ser assim. Um bom planejamento pode reduzir conflitos, custos e incertezas, deixando o luto mais leve e o processo mais humano. Falar sobre isso não é falta de sensibilidade — é um ato de cuidado, responsabilidade e amor.
O que é planejamento familiar e como fazer o seu
O planejamento familiar vai muito além de decidir se e quando ter filhos. Ele diz respeito a organizar a estrutura e o bem-estar da família em todas as fases da vida, inclusive quando um dos membros não estiver mais presente.
Envolve aspectos financeiros, patrimoniais e emocionais: quem ficará responsável por determinadas decisões, quais recursos estarão disponíveis em caso de emergência, como manter o padrão de vida dos dependentes e como assegurar que cada pessoa receba o apoio de que precisa.
O objetivo é garantir que, independentemente do que aconteça, a família continue amparada — tanto financeiramente quanto emocionalmente. Fazer o seu planejamento familiar exige três etapas básicas:
- Mapear a realidade financeira atual — receitas, despesas, bens e dívidas.
- Identificar dependentes e avaliar as necessidades de cada um.
- Definir instrumentos de proteção — seguros, previdência privada, testamento, doações em vida, etc.
E o planejamento sucessório, o que é?
O planejamento sucessório, por sua vez, é o conjunto de medidas legais e financeiras que organizam a transferência do patrimônio de uma pessoa para seus herdeiros. Sem ele, a herança precisa passar por um inventário, processo que pode ser caro e demorado. Segundo o Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), um inventário no Brasil leva em média de 6 meses a 2 anos para ser concluído, podendo consumir até 20% do valor total dos bens em custos e impostos.
Um bom planejamento sucessório antecipa essas questões e permite que o patrimônio seja transferido de forma mais rápida, justa e econômica. Além disso, reduz a chance de conflitos familiares, garante que a vontade do falecido seja respeitada e protege herdeiros vulneráveis, como filhos menores ou dependentes com necessidades especiais.
Por onde começar
Pode parecer um tema complexo, mas dar o primeiro passo é mais simples do que você imagina. Abaixo, confira as principais providências e o que considerar em cada uma delas.
1. Registrar em papel todas as informações importantes
Comece reunindo dados e contatos essenciais:
- Contas bancárias, corretoras, previdência privada e seguros;
- Investimentos, imóveis, veículos e participações em empresas;
- Contatos de advogados, contadores e pessoas de confiança.
Organize em uma planilha ou caderno físico e mantenha em local seguro. Um levantamento da Planeje Bem mostrou que famílias brasileiras deixam de resgatar, em média, R$ 50 mil em benefícios, seguros ou previdência após o falecimento de familiares por falta de informação ou registro claro. Ter tudo documentado evita perdas financeiras e confusões.
2. Registrar decisões e escolhas pessoais
Esse é o momento de deixar claro como você deseja ser lembrado e honrado em sua despedida. Você pode criar uma “Carta de Vontades” (também chamada de “Carta de Orientações Finais”), com informações como:
- Preferência por cremação ou sepultamento;
- Tipo de cerimônia desejada (religiosa, íntima, pública, sem rituais);
- Músicas, leituras ou homenagens preferidas;
- Desejo de doação de órgãos;
- Orientações religiosas ou espirituais específicas.
Esse documento não substitui o testamento, mas é uma forma afetiva e prática de aliviar a carga emocional de quem ficará responsável pelas decisões.
3. Incluir acessos digitais e redes sociais
Nossas vidas estão cada vez mais online. É importante definir o que será feito com redes sociais, e-mails, arquivos em nuvem e contas digitais. Você pode deixar:
- Uma lista com logins e senhas em local seguro (ou o acesso a um cofre digital);
- Instruções sobre o destino dos perfis (exclusão, memorialização ou transferência);
- Orientações sobre conteúdos importantes (fotos, textos, arquivos).
Redes como Facebook e Google já permitem indicar “contatos de legado”, que assumem a gestão da conta após a morte — um recurso simples que pode evitar transtornos e disputas.
4. Organizar documentos
Monte uma pasta física (e uma versão digital, se possível) com os principais documentos:
- Certidões (nascimento, casamento, divórcio, óbito de familiares);
- RG, CPF, CNH, títulos de propriedade, registros de veículos;
- Escrituras de imóveis, contratos de locação ou financiamento, IPTUs pagos;
- Documentos de veículos e comprovantes de IPVAs pagos;
- Apólices de seguros e previdência privada;
- Extratos bancários e de investimentos, declarações de imposto de renda e inventários anteriores.
Deixe tudo em ordem cronológica e categorizada. Informe alguém de confiança sobre onde essa pasta está guardada. Isso evita que familiares precisem procurar documentos em meio ao luto — um dos maiores desgastes relatados em inventários no país.
5. Atualizar e revisar periodicamente
A vida muda, e seu planejamento deve acompanhar essas mudanças. Reveja seus documentos e instruções a cada dois anos, ou sempre que houver eventos importantes: casamento, divórcio, nascimento de filhos, compra ou venda de imóveis, mudança de país, abertura de empresa, alteração de apólices e seguros. Atualizar garante que tudo continue válido e coerente com sua realidade e seus desejos.
6. Definir pessoas de confiança
Escolha uma ou mais pessoas para guardar suas instruções e saber onde está a documentação. Pode ser um parente, amigo, advogado ou mesmo o executor indicado em testamento.
Se necessário, registre uma procuração específica em cartório, autorizando que alguém aja em seu nome em determinadas situações, como doenças graves ou incapacidade de tomar decisões (por exemplo, acesso a contas ou liberação de seguros).
Herança e partilhas em vida: como fazer seu planejamento sucessório
Depois de organizar suas informações e desejos, é hora de entender e planejar como utilizar as principais ferramentas legais do planejamento sucessório. Esse é um passo essencial para garantir que seu patrimônio seja transmitido conforme sua vontade, evitando conflitos familiares e custos desnecessários no futuro. Entenda:
Testamento
O testamento é um documento público ou particular que define como parte do seu patrimônio será distribuída após sua morte. Pela lei, 50% dos bens (a “legítima”) pertencem obrigatoriamente aos herdeiros necessários (cônjuge, filhos, pais). A outra metade você pode destinar livremente, inclusive a instituições, amigos ou causas.
O testamento permite expressar vontades específicas e evitar disputas. Pode ser feito em cartório, na presença de advogados e testemunhas e alterado a qualquer momento.
Doação em vida
A doação em vida é uma forma prática de transferir bens aos herdeiros ainda em vida, podendo manter o usufruto — ou seja, o direito de continuar usando o bem até o fim da vida. É importante saber que a doação também está sujeita à cobrança do ITCMD (Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação), cobrado pelos estados. As alíquotas variam de 2% a 8%, dependendo da localidade.
Ainda assim, fazer a doação em vida pode ser vantajoso, porque esse imposto tende a aumentar ao longo do tempo — e não há como prever quando ou quanto. Além disso, o processo é mais rápido, reduz custos cartoriais e evita disputas futuras entre herdeiros. Por isso, é uma estratégia que não elimina impostos, mas ajuda a antecipar decisões com mais tranquilidade e previsibilidade. Sempre conte com orientação jurídica para formalizar o ato e garantir equilíbrio entre os beneficiários.
Formalização da união estável ou casamento
Muitos casais vivem juntos por décadas sem formalizar a união — o que pode gerar grandes dificuldades na sucessão. Formalizar o relacionamento em cartório garante direitos legais ao companheiro sobrevivente, evitando que precise disputar judicialmente o reconhecimento da união.
Além disso, definir o regime de bens (comunhão parcial, total ou separação) ajuda a esclarecer o que é de cada um e o que será partilhado.
Quanto custa um funeral?
Os valores variam conforme a região e o tipo de serviço, mas é importante ter uma noção média para se preparar financeiramente.
- Velório e sepultamento simples: entre R$ 3 mil e R$ 8 mil;
- Crematório com cerimônia: de R$ 6 mil a R$ 15 mil;
- Serviços adicionais (translado, flores, taxas de cemitério, documentação): de R$ 500 a R$ 3 mil.
Em cidades grandes, como São Paulo e Rio de Janeiro, o custo total médio de um funeral gira em torno de R$ 9 mil, segundo levantamento do Sincep realizado em 2024.
Essas despesas acontecem rapidamente e podem pesar no orçamento familiar, especialmente se não houver reserva ou cobertura específica.
Plano funerário e seguro de vida
Nesse sentido, o seguro de vida e o plano funerário são ferramentas fundamentais para aliviar o impacto financeiro em um momento tão sensível. De acordo com a Fenaprevi/Susep, apenas 18% dos adultos brasileiros possuem seguro de vida ativo, mas o setor vem crescendo. Em 2024, a arrecadação com seguros de pessoas somou R$ 72,7 bilhões, um aumento de 12,5% em relação ao ano anterior.
O seguro de vida garante recursos imediatos para os dependentes, cobrindo despesas emergenciais e preservando o patrimônio familiar. Como os valores de seguro de vida não fazem parte do espólio, eles trazem liquidez para a família, inclusive para o pagamento dos custos do inventário.
Já o plano funerário é uma assinatura que cobre os serviços de velório, sepultamento ou cremação — e pode incluir assistência psicológica e translado. Longe de ser um gesto de pessimismo, contratar esses serviços é uma forma de planejamento que traz segurança e paz para quem fica.
Como conversar sobre a morte com quem você ama
Falar sobre a morte é desconfortável, mas abrir essa conversa é um ato de maturidade e amor. Você pode começar dizendo que quer deixar tudo organizado, para que ninguém precise tomar decisões difíceis em um momento de dor.
Algumas dicas para iniciar o diálogo:
- Escolha um momento tranquilo e um ambiente acolhedor;
- Fale sobre o tema de forma leve e respeitosa;
- Explique que o objetivo é facilitar e proteger, não antecipar a perda;
- Mostre onde está guardada sua Carta de Orientações com informações práticas — contatos, documentos, senhas e seguros;
- Esteja aberto para ouvir sentimentos e dúvidas.
Essa conversa não é sobre a morte, mas sobre a vida de quem continua. Planejar é cuidar — e cuidar é uma das formas mais bonitas de amar.



